Serve a todos. O resultado? Varia conforme o CEP. Comece antes do sol, com celular tocando, duas horas de deslocamento e pressa. Acrescente fila de ônibus, trem cheio, bicicleta espremida, pés desviando de buracos e obstáculos. Se houver carro, unte com paciência: o engarrafamento é democrático, mas o ar-condicionado seleciona beneficiários. Se houver ônibus, deixe esperando. Se houver trem, pressione até não sobrar espaço. Se houver bicicleta, tempere com portas abertas e buzinas. Se houver apenas o corpo, sirva na calçada.
Leve ao fogo alto. Em alguns bairros, peneire o sol pela copa das árvores; em outros, despeje direto sobre telhado e asfalto. Mexa até suar: use suor de academia climatizada, de cozinha sem janela, de corrida no parque e de corrida para não perder a condução. Não substitua um pelo outro: cada um deixa gosto diferente na cidade.
Acrescente chuva: para uns, refresca a tarde e molha os vasos; para outros, sobe pelo ralo, entra pela porta, desce a encosta levando colchão e documentos. Junte calçada esburacada, postes no meio, carros sobre a guia, travessias perigosas. Incorpore idosos, crianças, cadeirantes sem adaptação. Se alguém tropeçar, atribua ao acaso.
Corrija o tempero com promessas: três árvores prometidas em lei, um parque se o mercado permitir, mais drenagem, moradia, transporte, segurança, escuta e futuro. Bata até formar espuma. Deixe descansar até a próxima estação de promessas. Se criar crosta, cubra com campanha de otimismo. Polvilhe felicidade em forma de ranking, sem moderação.
Quem mora na cidade reconhece o ponto: grandeza misturada à exaustão, pressa e espera na mesma massa, privilégio com goteira, varanda gourmet com córrego transbordando. Asse em temperatura alta, sem ventilação, por tempo indeterminado: 40 minutos a 4 horas, conforme renda, chuva e distância. Sirva quente, antes que a próxima enchente desande a receita. Rende milhões de porções. Sacia poucos.
Fonte: Jovem Pan



















