O setor brasileiro de alimentos e bebidas iniciou 2026 em um cenário marcado por pressão sobre receitas, volatilidade nas commodities e consumo ainda impactado pelos juros elevados. Mesmo assim, grandes empresas do segmento conseguiram preservar — e em alguns casos ampliar — suas margens operacionais, sustentadas por eficiência, gestão de custos e estratégias de premiumização.
A avaliação faz parte da análise elaborada por Edson Kawabata, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, sobre os resultados financeiros do primeiro trimestre de 2026 das principais companhias do setor, incluindo Ambev, M. Dias Branco e Camil.
Segundo o estudo, o período revelou empresas operando em um ambiente desafiador para crescimento de receita, mas com maior capacidade de proteger rentabilidade e eficiência operacional.
Ambev surpreende mercado com recuperação no volume de cervejas. Entre os destaques do trimestre, a Ambev apresentou o resultado mais positivo entre as empresas analisadas, impulsionando forte reação do mercado financeiro. O principal fator de surpresa foi o crescimento de 1,2% no volume de cervejas no Brasil, movimento considerado relevante diante da expectativa anterior de retração nas vendas.
A companhia também registrou avanço expressivo em segmentos de maior valor agregado: cervejas premium (+20%), bebidas saudáveis (+70%) e cervejas sem álcool (+10%). O movimento ajudou a sustentar aumento de 8% no preço médio e elevou a receita líquida por hectolitro para R$ 571,1, com crescimento orgânico de 11,4%.
Segundo Edson Kawabata, o desempenho demonstra fortalecimento estratégico do portfólio da companhia. “A Ambev conseguiu crescer volumes mesmo em um cenário mais desafiador, sustentando preços e participação de mercado por meio de um mix mais qualificado”, destaca a análise.
No consolidado global, porém, o cenário foi mais heterogêneo, com queda de volumes em mercados como Canadá, América Central e América Latina Sul. Ainda assim, a companhia conseguiu elevar a margem EBITDA ajustada para 33,6%, favorecida pela gestão de custos e pela melhora do mix de produtos.
M. Dias Branco cresce em volume, mas pressão nos preços limita receita. A M. Dias Branco apresentou crescimento operacional relevante no trimestre, especialmente em volumes vendidos e ganho de participação de mercado. As vendas cresceram 3,4%, alcançando 408 mil toneladas, impulsionadas principalmente por biscoitos, crackers e farinha de trigo.
Mesmo assim, a companhia enfrentou pressão nos preços médios, que recuaram entre 3% e 5% na comparação anual. O efeito foi provocado pelo maior peso de categorias de menor margem, como farinha industrial e ingredientes voltados ao food service. Com isso, a receita líquida avançou apenas 0,4%, somando R$ 2,22 bilhões.
Por outro lado, a queda nos custos das matérias-primas, especialmente trigo e açúcar, contribuiu para melhora da margem bruta, que alcançou 32,4%. O EBITDA da empresa somou R$ 196 milhões, alta de 21,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Camil sofre com deflação do arroz e mantém atenção na alavancagem. A Camil enfrentou um dos cenários mais desafiadores do trimestre, pressionada pela forte deflação do arroz. Embora os volumes vendidos tenham crescido 8,9%, a queda de 45,5% no preço do arroz reduziu significativamente a receita da companhia. No segmento de maior representatividade da empresa — arroz, feijão e açúcar — os volumes cresceram 9,8%, mas os preços líquidos caíram 26,6%.
Segundo a análise da Peers Consulting + Technology, o caso da Camil evidencia a forte exposição das empresas do setor às oscilações das commodities agrícolas. Mesmo diante da pressão sobre receitas, a companhia conseguiu ampliar sua margem bruta para 21,7%, refletindo maior eficiência na gestão dos custos de matéria-prima. O EBITDA ajustado permaneceu praticamente estável em R$ 192,8 milhões. No entanto, a empresa encerrou o período com prejuízo líquido ajustado de R$ 40,3 milhões, impactada pela alavancagem financeira elevada e pelos juros altos.
Premiumização e produtos saudáveis ganham força no setor. A análise conduzida por Edson Kawabata aponta que a principal tendência estratégica do setor está na busca por produtos de maior valor agregado como forma de reduzir a dependência das commodities tradicionais. Na Ambev, isso aparece no avanço das cervejas premium e bebidas saudáveis. Na M. Dias Branco, o movimento ocorre com o fortalecimento das linhas de saudabilidade e snacks, incluindo marcas como Jasmine e Frontera. Já a Camil amplia presença em categorias gourmet, grãos especiais e produtos saudáveis.
Segundo o especialista, empresas que conseguirem acelerar essa transição tendem a construir modelos de rentabilidade mais resilientes. “O crescimento de volume, sozinho, deixou de ser suficiente para determinar geração de valor. O mercado está premiando eficiência operacional, gestão de margens e capacidade de diferenciação”, aponta Kawabata.
Setor enfrenta desafios, mas mantém oportunidades em 2026. A análise também destaca fatores que devem influenciar o desempenho do setor ao longo de 2026. Entre as oportunidades estão: Copa do Mundo de 2026 impulsionando consumo de bebidas, possível recuperação nos preços do arroz e eventuais cortes na taxa Selic reduzindo despesas financeiras. Por outro lado, permanecem desafios importantes: consumo pressionado por juros elevados, endividamento das famílias, concorrência intensa em categorias tradicionais, pressão sobre margens fora do Brasil e volatilidade das commodities agrícolas.
Mesmo diante do cenário desafiador, o setor segue demonstrando capacidade de adaptação, com foco crescente em eficiência, inovação e produtos de maior valor agregado.
Fonte: Portal do Agronegócio





















