A trajetória de Jucilene Homem, 48 anos, à frente da Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef) teve início nas quadras de basquete em cadeira de rodas. Antes de se tornar presidente da entidade, ela acumulou 23 anos de experiência no esporte paralímpico, vivência que moldou sua compreensão sobre inclusão, autonomia e garantia de direitos.
O primeiro contato com a Aflodef ocorreu de forma inusitada: como adversária. Jucilene defendia outra equipe catarinense e cruzava com a associação nas competições. Anos mais tarde, em 2016, o então presidente Zezinho a convidou para integrar a instituição, inicialmente no setor de esportes. A partir desse convite, uma nova fase de sua história começou.
Mesmo sem atuar como atleta, Jucilene mantém vínculo com o basquete e atualmente é auxiliar técnica do professor Pedro, responsável pela equipe da Aflodef. Sua ligação com o esporte é marcada por forte envolvimento pessoal. “É uma paixão. O esporte mudou a minha vida e continua sendo uma ferramenta poderosa de transformação social, não só para a pessoa com deficiência, mas para toda a sociedade”, afirma.
Primeira mulher a presidir a entidade, Jucilene converteu sua experiência pessoal em defesa constante da participação das pessoas com deficiência na elaboração de políticas públicas. Ela esteve à frente da instituição até 2025. Para ela, não basta criar ações voltadas a esse público; é essencial ouvir quem enfrenta diariamente barreiras de acessibilidade, mobilidade e inclusão.
“As pessoas que cuidam das nossas políticas públicas precisam nos ouvir. Muitas vezes decisões são tomadas sem o nosso consentimento. Ninguém perguntou se seria bom ou ruim para nós”, critica.
Jucilene recorre a uma metáfora para descrever o atual estágio da luta pelos direitos das pessoas com deficiência. Segundo ela, os avanços conquistados representam a passagem do inverno para a primavera, mas essa primavera ainda não floresceu completamente. “A nossa primavera ainda não chegou. Está adormecida. Aguardamos que ela venha para florescer nossos direitos e mudar o olhar da sociedade”, diz.
Na avaliação dela, o capacitismo — preconceito e discriminação baseados na deficiência — segue como um dos principais obstáculos. Jucilene defende uma mudança de perspectiva para que as pessoas não sejam julgadas por suas limitações, mas reconhecidas por suas capacidades e pelo que podem oferecer.
Ela reconhece que o Brasil avançou nas últimas décadas, especialmente considerando o passado, mas destaca a distância entre os direitos garantidos e a realidade cotidiana. “Estamos longe do sonho ideal. Melhorou muito. Para mim, que nasci em 1978, chegar a 2026 com conquistas é importante. Mas ainda precisamos que a sociedade abrace nossa causa. Isso não aconteceu, infelizmente”, afirma.
A mudança, segundo Jucilene, passa pela convivência e pela compreensão das barreiras diárias. “Um pequeno degrau pode representar uma dificuldade enorme de locomoção. A falta de uma rampa pode impedir o acesso a um espaço público ou de lazer. São obstáculos que passam despercebidos por quem não vivencia essa realidade”, explica.
Jucilene também ressalta um aspecto frequentemente esquecido no debate sobre acessibilidade: as adaptações não beneficiam apenas pessoas com deficiência. “Quando falamos de acessibilidade, não é só para a pessoa com deficiência. É para o idoso, para a gestante, para alguém com limitação temporária”, destaca. Ela lembra que qualquer pessoa pode, em algum momento, sofrer um acidente, machucar o pé, precisar de muletas ou usar cadeira de rodas durante a recuperação. Pensar em acessibilidade, portanto, significa construir uma sociedade preparada para diferentes necessidades e fases da vida.
A trajetória de Jucilene na Aflodef reflete essa transformação. A atleta que conheceu a entidade como adversária passou a integrá-la, levou sua experiência esportiva para o trabalho, assumiu responsabilidades e chegou à presidência. Sua história também ilustra a importância da própria associação: um espaço que reúne esporte, convivência, trabalho, autonomia e defesa de direitos, mas que, acima de tudo, permite que pessoas com deficiência sejam protagonistas das decisões e mudanças que afetam suas próprias vidas.
Fonte: Assembleia SC


























