Com a popularização dos jogos de azar virtuais, Criciúma tem ampliado a oferta de atendimento psicológico especializado para pessoas que perderam o controle sobre as apostas online. Um grupo de apoio foi criado para acolher e orientar esses pacientes, que enfrentam consequências financeiras, familiares e emocionais decorrentes da compulsão.
Os encontros ocorrem nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e na Unidade Básica de Saúde (UBS) Central, com acompanhamento de profissional especializado. Enquanto o CAPS atende casos mais complexos, a UBS Central foca na orientação e identificação de sinais iniciais. A estratégia busca não apenas tratar quadros já instalados, mas também prevenir agravamentos.
Pedro*, de 48 anos, nome fictício usado para preservar sua identidade, é um dos participantes. Ele relata que o vício começou após clicar em um link recebido no celular. Rapidamente, as perdas financeiras e materiais se acumularam. Seu primeiro contato com o grupo foi no CAPS III, e atualmente faz acompanhamento semanal com psicólogo na UBS Central.
“Fui apostando sem parar. Quando percebi, estava afundado, sem rumo. Cheguei a pegar dinheiro emprestado, vender carro e moto e até deixar de trabalhar para jogar. Estava fora de controle e, sozinho, não conseguia parar”, conta.
O comportamento também abalou as relações familiares. Pedro* afirma que a pressão das apostas afetou a convivência com os filhos e a esposa. A decisão de buscar ajuda veio após uma perda financeira significativa, que o fez perceber a necessidade de interromper o ciclo.
O trabalho, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Saúde, começou a ser estruturado neste ano e acompanha uma preocupação crescente em nível nacional. A proposta é oferecer uma resposta específica para quem já enfrenta dificuldades com apostas, além de ampliar a capacidade da rede municipal de identificar comportamentos de risco.
O prefeito de Criciúma, Vagner Espindola, destaca que a criação do grupo é uma resposta do município a um problema que ganha espaço na sociedade. “Precisamos estar atentos às novas necessidades da população e preparados para oferecer atendimento antes que essas situações provoquem consequências ainda mais graves. Nosso compromisso é garantir acolhimento, orientação e cuidado, sem julgamento”, ressalta.
O secretário municipal de Saúde, Deivid de Freitas Floriano, afirma que o objetivo é identificar os sinais o quanto antes. “A atenção à saúde precisa acompanhar as mudanças da sociedade. Quanto mais cedo os profissionais reconhecerem que alguém está desenvolvendo uma relação prejudicial com as apostas, maiores as chances de intervenção e de evitar que o problema se agrave”, explica.
Segundo Pedro*, a mudança começou a aparecer na rotina. Ele conta que a frequência das apostas diminuiu e que passou a buscar outras atividades quando sente vontade de jogar. “Eles fazem perguntas, dão ideias. Se penso em jogar, tento fazer outra coisa, ficar com as crianças, praticar esporte. É para não entrar no jogo, esquecer e fazer outras coisas”, diz.
Mesmo no início da recuperação, Pedro* já percebe diferenças em relação ao período em que não controlava o comportamento. Para ele, o acompanhamento também o ajudou a entender que parar de apostar não depende só de força de vontade. “Achava que era fácil, que eu era forte e que conseguiria sozinho. Hoje vejo que não é assim. Quem está nessa situação precisa procurar ajuda porque sozinho não consegue. No município tem psicólogos e pessoas à disposição. Antes de procurar ajuda, estava indo para o fundo do poço. Agora estou bem melhor”, conclui.
O gerente de Saúde Mental de Criciúma, Leandro Fernandes Maffei, ressalta que o problema deve ser compreendido de forma ampla. Por isso, a Secretaria de Saúde também capacita profissionais para que cada CAPS tenha uma referência nesse tipo de atendimento, considerando necessidades individuais e possibilidades de acompanhamento em grupo. A estratégia busca fortalecer a Rede de Saúde Mental e expandir gradualmente o cuidado para outros pontos do serviço municipal.
“A compulsão por apostas não deve ser vista apenas como uma dificuldade financeira. Quando a pessoa perde o controle e continua apostando mesmo diante dos prejuízos, diversas áreas da vida podem ser afetadas. Nosso papel é acolher, compreender essa realidade e construir, junto com o usuário, estratégias que ajudem na retomada do controle”, explica Maffei.
Para participar dos grupos, os interessados podem procurar a UBS do seu bairro e relatar a necessidade ao médico. A orientação é buscar ajuda assim que as apostas começarem a causar perda de controle ou prejuízos financeiros, familiares, profissionais ou emocionais.
*O nome fictício Pedro foi usado para preservar a identidade do paciente.
Fonte: Pref. de Criciúma


























