Uma doação de sangue leva cerca de dez minutos e tem o potencial de beneficiar ao menos três pacientes. Em determinadas circunstâncias, uma única bolsa pode atender um número ainda maior de pessoas. Em Santa Catarina, a rotina de coletas gira em torno de 450 a 550 bolsas por dia, volume essencial para que os hospitais de todas as regiões do estado continuem funcionando normalmente.
Nesta semana, o painel do Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina (Hemosc) indicava estoques baixos para os tipos A negativo, A positivo e B negativo. As modalidades O negativo e O positivo estavam classificadas em nível de alerta. Já os tipos B positivo e AB positivo apresentavam situação adequada, enquanto o AB negativo se mantinha estável. O acompanhamento atualizado desses números pode ser consultado no site da instituição.
Mesmo com a atenção voltada a alguns tipos específicos, o diretor técnico do Hemosc, Guilherme Genovez, afirma que o quadro não configura desabastecimento imediato. Segundo ele, o risco existe no médio prazo e está diretamente ligado à regularidade das coletas diárias.
Para evitar cenários de escassez, o Hemosc opera com uma margem de segurança que permite antecipar problemas. Conforme Genovez, o volume recolhido diariamente no estado fica próximo ao consumido pela rede de saúde, o que mantém o sistema em equilíbrio, mas exige constância.
O tipo O merece atenção diferenciada. Além de ser comum entre a população, é amplamente utilizado, sobretudo em urgências. O O negativo pode ser aplicado quando não há tempo hábil para identificar o grupo sanguíneo do paciente, sendo empregado em atendimentos emergenciais e nos estoques de equipes do Samu e do transporte aeromédico.
Genovez compara esse tipo sanguíneo a um curinga de baralho. Ele explica que, em acidentes, por exemplo, não há tempo para descobrir o tipo sanguíneo da vítima, e o O negativo acaba sendo o mais requisitado — e, por isso, o que mais faz falta.
O diretor destaca que, no Brasil, todo o sangue usado em transfusões vem da solidariedade da população, já que a Constituição veda a comercialização de sangue, tecidos e órgãos. Sem doadores, não há sangue disponível.
A demanda, no entanto, pode oscilar de forma abrupta. Cirurgias de grande porte, tratamentos oncológicos, transplantes e atendimentos a vítimas de traumas graves podem consumir dezenas de bolsas. Genovez relata casos excepcionais em que um só paciente precisa de 40, 50 ou até 60 bolsas.
Após a coleta, o sangue é processado e separado em componentes como concentrado de hemácias, plasma e plaquetas, cada um destinado a necessidades distintas. Por isso, uma doação pode ajudar pelo menos três pessoas — e, em situações específicas, o alcance é ainda maior. No atendimento a recém-nascidos e crianças de baixo peso, um componente pode ser fracionado em volumes menores, beneficiando de três a até dez pacientes.
Para Mirela Elaine Colenett, de 56 anos, doar sangue é rotina há cerca de dez anos. A inspiração surgiu em casa: a filha, também doadora de plaquetas, foi a primeira a motivá-la, seguida pelo filho. Mirela, do tipo O positivo — um dos que exigem atenção no momento —, comparece ao Hemosc sempre que recebe avisos sobre a necessidade de reposição. Sua motivação é direta: assim como outros precisam, ela também pode vir a precisar um dia.
O Hemosc gerencia a coleta e a distribuição de sangue em Santa Catarina, atendendo hospitais públicos, privados e filantrópicos. A instituição também realiza exames e mantém uma estrutura centralizada que assegura padronização e segurança. Conforme Genovez, o sistema catarinense tem certificação ISO 9001 e adota padrões internacionais na identificação das bolsas. O Hemosc ainda acompanha doenças hematológicas, como hemofilia e doença falciforme, e parte dos exames de alta complexidade feitos em Florianópolis atende demandas da região Sul.
Para doar, o candidato precisa estar em boas condições de saúde, alimentado e descansado, além de cumprir os critérios estabelecidos. Entre os requisitos básicos estão peso mínimo de 50 quilos e avaliação individual antes da coleta. O Hemosc realiza triagem prévia para garantir que o procedimento seja seguro para doador e receptor. Alguns critérios variam conforme idade, histórico de saúde, uso de medicamentos, procedimentos recentes e outras condições. As doações ocorrem nas unidades do Hemosc em Santa Catarina e podem ser agendadas com antecedência.
Em um sistema que depende exclusivamente de doadores, manter estoques seguros exige participação contínua, não apenas em emergências. Como resume Genovez, cada bolsa começa com uma decisão individual e pode terminar ajudando vários pacientes: dez minutos para quem doa podem representar uma nova chance para quem precisa de sangue.
Fonte: Assembleia SC

























