SAÚDECólica menstrual leva 40% das alunas brasileiras a faltar aula todo mês

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Pesquisa divulgada na última quarta-feira (27) pelos institutos Alana e Equidade.info revela que as cólicas menstruais representam a principal causa de faltas escolares entre meninas no Brasil. O levantamento mostra que quatro em cada dez estudantes que menstruam deixam de ir à aula pelo menos uma vez por mês devido ao desconforto provocado pelo ciclo menstrual.

O estudo entrevistou 2.552 pessoas, entre as quais 770 alunas que menstruam, 330 professoras e 181 gestores de escolas públicas e particulares em todo o território nacional. As participantes apontaram a dor abdominal como o sintoma que mais atrapalha o desempenho nos estudos, acompanhada de cansaço extremo e dores musculares.

Outro dado relevante é que 20,1% das jovens relataram sentir vergonha ou medo de sofrer vazamento de sangue durante o período menstrual. Esse número evidencia a necessidade de abordar a educação menstrual dentro do ambiente escolar, de acordo com os pesquisadores.

Problemas estruturais também aparecem nas respostas: 8,2% das alunas reclamaram da falta de banheiros adequados e de itens básicos de higiene, como absorventes, papel higiênico e lenços umedecidos. A ausência de infraestrutura para receber as estudantes nesse período revela não apenas um desafio individual, mas também desigualdades no acesso à informação sobre menstruação e cuidados com a saúde, que atingem com mais força meninas de baixa renda e negras.

A pesquisa constatou que grande parte das entrevistadas teve a primeira menstruação (menarca) antes dos 10 anos de idade — 36,5% do total. O percentual sobe para 65,2% entre aquelas que menstruaram pela primeira vez após os 11 anos. Esse fenômeno de precocidade tem se tornado mais comum nas últimas décadas, o que torna ainda mais urgente adaptar as escolas para receber meninas que já menstruam.

A ginecologista Mariana Granado, que atende no Hospital M’Boi Mirim (gerido pelo Einstein), explica que a menstruação precoce tem causas multifatoriais, com destaque para o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados durante a infância, a exposição à poluição e fatores genéticos. “Isso ocorre principalmente por questões nutricionais e ambientais, ligadas ao índice de massa corporal de meninas cada vez mais jovens”, afirma a médica.

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Os dados sugerem que o início precoce da menstruação está associado a dores mais severas: entre as meninas que menstruaram até os 10 anos, 43% descrevem as cólicas como intensas. Esse índice cai para 27% entre aquelas que tiveram a menarca aos 11 ou 12 anos.

Granado acrescenta que a imaturidade emocional para lidar com o ciclo e os sintomas é uma das causas mais comuns de faltas escolares. “Muitas, por vergonha e por não terem mecanismos para lidar com o que está acontecendo, deixam de ir à escola”, relata. “Além disso, há fatores de saúde mental, como ansiedade, e até casos de bullying.”

A especialista defende que o conhecimento sobre a menstruação deve ser disseminado por todo o corpo escolar, e não apenas entre as meninas. “Essa medida pode reduzir o preconceito e o bullying contra as alunas que vão ter a menarca naquele período”, argumenta.

Para ela, é essencial que as estudantes compreendam, antes mesmo de menstruar, as transformações que podem ocorrer no corpo, incluindo dores e sintomas que não são normais. “Aprender a reconhecer o funcionamento normal do fenômeno ajuda a identificar quando algo está errado e é preciso procurar ajuda médica.”

Joyce Martins, ginecologista e sexóloga, defende que a solução passa por um processo de educação continuada, envolvendo educadores e alunos. “É importante chamar a atenção para o assunto nas escolas para que elas tenham repertório e possam trocar experiências com outras pessoas que menstruam, recebendo assistência e cuidado”, explica.

Apoios práticos, como ensinar a usar o absorvente, fornecer uma troca de roupa em caso de vazamento e disponibilizar um local adequado, são medidas que os profissionais da educação podem adotar para tornar o ambiente mais acolhedor durante o período menstrual.

Os sintomas menstruais também são influenciados por questões raciais e econômicas. Segundo a pesquisa, meninas brancas relatam com mais frequência dores fortes, enquanto o percentual é menor entre as negras. No entanto, os pesquisadores alertam que esse dado pode esconder uma subnotificação: meninas racializadas muitas vezes temem não ser acolhidas ao expressar a dor.

“Essa diferença vai na contramão da literatura clínica internacional, que mostra maior prevalência de cólicas fortes em mulheres negras”, afirma Sofia Reinach, gerente de saúde do Instituto Alana. “Uma possível explicação é que, historicamente, mulheres negras são ensinadas a nomear menos a própria dor e a tolerá-la mais antes de falar.”

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Os índices de absenteísmo confirmam essa hipótese: 14,5% das meninas negras faltaram de dois a cinco dias, contra 9,6% das brancas no mesmo período. Joyce Martins comenta que a correlação entre questões sociais e desinformação menstrual ocorre porque as meninas mais vulneráveis enfrentam problemas ainda mais sensíveis. “Isso é atravessado pela questão de acesso, não apenas a medicamentos ou absorventes, mas também à própria educação menstrual”, explica.

Cólicas fortes em cerca de uma em cada três meninas indicam a necessidade de triagem clínica, segundo o estudo. Condições como endometriose, que afeta uma em cada dez mulheres e pode levar até sete anos para ser diagnosticada, geralmente começam na adolescência. Os dados reforçam a necessidade de aproximar as áreas da saúde e da educação para promover a educação menstrual.

A disseminação de informações sobre doenças pode ajudar no diagnóstico precoce de condições patológicas que muitas vezes são normalizadas. O diagnóstico tardio pode agravar o quadro e dificultar tratamentos futuros. Mariana Granado defende a criação de políticas públicas que promovam maior conhecimento sobre endometriose e adenomiose como medida preventiva.

“Se dissemino o conhecimento, surgem mais políticas relacionadas ao tema que podem alcançar as pessoas”, afirma. “Quando falamos de equidade de gênero, políticas públicas direcionadas são capazes de reduzir o estigma relacionado à saúde menstrual.”

Para ela, profissionais de saúde podem colaborar com escolas, especialmente as públicas, fornecendo materiais educativos, palestras e rodas de conversa. “Se o paciente está com tanta desinformação sobre a saúde e o funcionamento do corpo, também é responsabilidade do médico e dos demais profissionais de saúde.”

A ginecologista Joyce Martins concorda e defende uma relação próxima com a unidade de saúde de referência. “Uma consulta de acolhimento, seja com pediatra, ginecologista, médico da família ou enfermeira, para acolher meninas, pode garantir que elas recebam melhores cuidados a partir daí”, finaliza.

Fonte: CNN Brasil

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