A morte de dois bebês no Hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú, em um intervalo de 24 horas em agosto de 2024, gerou revolta entre a comunidade e familiares, que ainda buscam por respostas. Agora, ao menos dez novas testemunhas, entre médicos e profissionais da gestão, devem ser ouvidas.
De acordo com a defesa da família de uma das crianças, o pequeno Theo Francisco Neumann, que faleceu com 1 ano e 9 meses, estando aos cuidados do hospital, deu entrada no Ruth Cardoso após apresentar um quadro de febre alta, e acabou morrendo em decorrência de uma pneumonia.
Agora, os pais de Theo buscam respostas concretas sobre o que aconteceu com o menino durante o período em que esteve no hospital.
— A família quer saber o que aconteceu, porque levou uma criança até então saudável para o hospital e ele acabou morrendo lá dentro. Talvez isso não tivesse acontecido se o atendimento fosse mais célere, ou se ele tivesse ido para uma UTI. Consta, no depoimento da mãe, que ela viu o filho com dificuldade de respirar e falaram que estava acabando o oxigênio — relata o advogado da família, Juliano Cavalcanti.
Além disso, supostas inconsistências ainda não teriam sido esclarecidas. De acordo com o advogado Leonardo da Silva Siqueira, que também defende a família, os responsáveis por Theo questionam a decisão do hospital em não ter permitido a transferência do menino para uma outra unidade.
— Dentre os depoimentos que serão colhidos pela polícia, está o do gestor responsável pelo hospital no período da morte do Theo. Nós recebemos o prontuário dele e o documento não diz o porquê de ele ter permanecido no Ruth Cardoso, sendo que havia leito disponível em outro hospital. Queremos entender qual foi a justificativa da equipe médica para não autorizar a transferência — aponta.
Na época, o complexo hospitalar ainda era administrado pelo município. Após o incidente, a gestão municipal retomou tratativas para estadualizar o hospital. Desde dezembro de 2025, o Governo de Santa Catarina atua oficialmente na gestão do Ruth Cardoso.
O que dizem as autoridades: O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), através da 2ª Promotoria de Justiça de Balneário Camboriú, confirma que estão sendo ouvidas testemunhas atualmente. O órgão afirma que “aguarda a chegada das diligências requisitadas, entre elas, os depoimentos”.
Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Saúde afirmou que não possui informações sobre a época em que aconteceram as mortes. “A Secretaria de Estado da Saúde ressalta que assumiu o Hospital Regional Ruth Cardoso em dezembro de 2025, sendo responsável pela sua gestão a partir desta data, e não há informações sobre períodos anteriores”, traz o texto.
Procurada para atualizações sobre o caso, a Prefeitura de Balneário Camboriú não forneceu informações sobre o andamento das investigações até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.
Já a Polícia Civil, afirma que na época do ocorrido foi instaurado um Inquérito Policial para investigar o caso, mas segundo a corporação, foi fechado ainda em 2024 e encaminhado ao Poder Judiciário. Sobre novas oitivas, a corporação não respondeu aos questionamentos.
CRM arquiva inquérito por ausência de indícios de falha médica: O Conselho Regional de Medicina, que abriu um inquérito em 2024 para averiguar o caso e constatar se houve falha na atuação dos profissionais, afirmou que o processo, que corria em sigilo, foi arquivado por ausência de indícios de negligência. “O Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (CRM-SC) informa que adotou as medidas cabíveis para apuração da conduta ética profissional da equipe médica envolvida. Após análise dos dados e documentos obtidos pela autarquia, incluindo as evoluções médicas registradas em prontuário, o procedimento foi arquivado por ausência de indícios de negligência médica ou de elementos que configurassem infração ética”, frisa o órgão através de nota.
Relembre o caso: Entre domingo (11) e segunda-feira (12), de agosto de 2024, dois bebês morreram no Hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú. Uma das crianças tinha 6 meses de vida e a outra 1 ano e 9 meses. Para os pais, houve falha no atendimento. A unidade de saúde, porém, sustenta que prestou o serviço corretamente.
— Tive que gritar, implorar sozinha. Eu disse: “Socorro, meu filho está com falta de ar de novo, coloca oxigênio nele” e só ouvia: “Calma, mãezinha”. O desabafo compartilhado nas redes sociais é de Aline Lubke, mãe de Eliadh, de seis meses. Conforme a família, o menino foi levado ao hospital na madrugada do dia 11 de agosto com febre alta, mas liberado com uma suposta bactéria. O menino piorou e, já com falta de ar, foi levado novamente à unidade naquela mesma noite e internado em um quarto.
Segundo a mulher, o pequeno só recebeu suporte para respirar depois de muita insistência dela. O quadro piorou e o menino foi retirado do quarto pelos profissionais. Na volta, a notícia: Eliadh morreu vítima de insuficiência respiratória e bronquiolite, na manhã de 12 de abril, uma segunda-feira.
Na ida ao hospital, entre sábado e domingo, Aline viu Manuela Francisco Martins também pedindo ajuda por conta do estado de saúde do filho dela, de 1 ano e 9 meses. Theo Neumann morreu na manhã daquele mesmo dia, por complicações de uma pneumonia, contou Manuela em entrevista à NSC TV.
Theo faleceu esperando vaga na UTI: Manuela buscou o hospital no dia 8 de agosto, Theo estava fraco, com muita febre. Foi examinado e diagnosticado com um problema no pulmão. Medicado, pôde retornar ao lar. A criança foi piorando e no sábado (10), depois de recorrer à Unidade de Pronto Atendimento no bairro das Nações, foi encaminhado às pressas à sala de emergência do Ruth Cardoso. No local, a mãe ouviu que o caçula estava com pneumonia aguda e infecção generalizada. Enquanto esperava uma vaga na UTI, Theo morreu.
— Eu via que ele não estava bem porque ele sempre foi alegre, brincalhão e nesses últimos tempos ele só chamava toda hora “mãe, mamãe” — diz Manuela. Na época, a mãe do menino registrou um boletim de ocorrência acreditando na existência de negligência no atendimento ao pequeno. A família de Aline, que sepultou o bebê Eliadh em 13 de abril, também espera por justiça.
O que disse o hospital: Em nota publicada em 2024, a Secretaria Municipal de Saúde garantiu que o “Hospital Municipal Ruth Cardoso prestou toda a assistência, com todos os atendimentos médicos e exames necessários para os dois casos. Os atendimentos ocorreram de forma rápida e ágil de acordo com a gravidade dos casos, e foram prestados por médicos pediatras especialistas, devidamente registrados no Registro de Qualificação de Especialidades do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina”.
Ambos os episódios foram considerados graves pela unidade e a principal suspeita é de infecção respiratória aguda grave, mas as causas serão confirmadas pela comissão de óbitos do hospital. Sobre a transferência de Theo para uma UTI, a diretoria explicou que a vaga foi obtida, mas não houve tempo para levá-lo devido à evolução rápida da piora no caso.
O que disse o CRM: “O Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (CRM-SC) informa que tomou conhecimento dos fatos nesta segunda-feira (12), e está adotando as medidas cabíveis na apuração do caso. A Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) nº 2.306/2022, exige que a investigação pelos CRMs, de qualquer caso envolvendo a atuação médica, ocorra de forma sigilosa. Isso impede que o CRM-SC faça manifestações públicas sobre processos em tramitação envolvendo médicos”, informou o órgão na época.
Setor de internação do hospital (Foto: Morgana Fernandes, NSC TV). Famílias se reuniram diante do hospital nesta terça (Foto: Luiz Carlos de Souza, NSC TV).
Fonte: NSC Total


























