A Polícia Civil de Roraima deflagrou nesta semana uma operação que marca um novo patamar no combate ao crime organizado na região. Foram cumpridos mandados de prisão, busca e apreensão não apenas no estado, mas também em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Amazonas e Paraná. A ação, coordenada pela Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco) de Roraima, mirou o braço financeiro da facção venezuelana Tren de Aragua.
De acordo com as investigações, o grupo utilizava a fronteira para introduzir armamento pesado proveniente dos Estados Unidos e da Colômbia, destinado a facções brasileiras como o Comando Vermelho. O esquema envolvia também a lavagem de dinheiro por meio de criptoativos, com movimentação superior a R$ 300 milhões nos últimos 12 meses.
Em dois anos, estima-se que o Tren de Aragua tenha movimentado cerca de R$ 6 bilhões em território brasileiro. Onze pessoas foram presas, entre elas dois acusados de serem operadores financeiros da organização. Um deles foi detido no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, e o outro em Foz do Iguaçu, no Paraná.
A operação evidencia a necessidade de aproximação entre órgãos de segurança do Brasil e de países vizinhos para compartilhar informações e planejar ações conjuntas. Para o crime, as fronteiras não existem mais, e os Estados nacionais precisam se adaptar a essa realidade por meio de protocolos que permitam repressão coordenada.
A extensão da operação demonstra a ramificação do Tren de Aragua no Brasil, em aliança com organizações locais. Esse cenário preocupa as autoridades, pois sinaliza a internacionalização do crime na América Latina, com grupos estrangeiros atuando em parceria com facções brasileiras.
O Tren de Aragua aproveitou o aumento da imigração venezuelana para se infiltrar no país. Inicialmente, atuava na exploração da prostituição, depois passou ao tráfico de drogas e, mais recentemente, ao contrabando de armas para abastecer facções locais.
Diferentemente de outros grupos, o Tren de Aragua não busca disputar controle territorial. Seu modelo de negócio é atuar como fornecedor de armas e drogas, especialmente sintéticas como metanfetamina e ecstasy, para outras organizações criminosas.
A organização utiliza a chamada Rota do Norte, que atravessa a Amazônia, para transportar entorpecentes e armamentos por rios e estradas. Esse tipo de crime é difícil de reprimir sem integração entre os órgãos de segurança dentro e fora do país.
Somadas, as fronteiras do Brasil com Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia — estes três últimos os maiores produtores mundiais de cocaína — chegam a mais de 10 mil quilômetros, o que representa 60% da fronteira seca do país. Fiscalizar essa extensão sem tecnologia e cooperação internacional é considerado inviável pelas autoridades.
A operação contra o Tren de Aragua deve abrir caminho para uma maior aproximação entre o Brasil e seus vizinhos no enfrentamento da ameaça comum representada pelo crime organizado transnacional.
Fonte: O GLOBO






















