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O cérebro humano é o único órgão que nasce extremamente imaturo e incompleto, dependendo quase inteiramente das experiências externas para se estruturar. Longe de ser apenas um “sentimento”, o afeto atua como o principal organizador central do cérebro em formação, influenciando diretamente a forma como a criança percebe o mundo, aprende e constrói sua autonomia. É através da neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se reorganizar e formar novas conexões neurais em decorrência da experiência — que as interações afetivas deixam marcas permanentes na biologia infantil.

 O Ciclo das Sinapses e a “Poda” Neuronal

Desde o nascimento, o desenvolvimento cerebral é estritamente dependente de atividade; cada toque, olhar ou conversa cria e reforça conexões entre os neurônios, chamadas sinapses. Durante a infância, o cérebro continuamente cria redes neurais baseadas na riqueza das vivências oferecidas pelos cuidadores. Os circuitos que são frequentemente estimulados pelo afeto e pelo cuidado se fortalecem, enquanto as conexões não utilizadas acabam sendo descartadas em um processo natural conhecido como “poda neuronal”. Assim, um ambiente empobrecido de estímulos afetivos pode levar à perda de circuitos essenciais para o desenvolvimento social e cognitivo.

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 Química do Cuidado: Ocitocina vs. Cortisol

A neuroplasticidade é mediada por respostas bioquímicas às interações sociais. Quando um cuidador responde de forma sensível e previsível, o cérebro da criança libera ocitocina, um hormônio que possui efeito tranquilizante, reduz a ansiedade e favorece a estabilidade dos circuitos neurais. Por outro lado, a privação afetiva ou o estresse crônico elevam os níveis de cortisol. A exposição prolongada a altos níveis de cortisol no início da vida pode ter efeitos tóxicos, prejudicando a formação do cérebro e impactando a saúde mental até a vida adulta.

 A “Base Segura” como Motor da Aprendizagem

A neurociência e a psicologia do desenvolvimento convergem no conceito de apego seguro. Quando a criança desenvolve uma relação de confiança, ela utiliza o cuidador como uma “base segura” para explorar o ambiente. Essa segurança permite que o cérebro não precise focar apenas em mecanismos de sobrevivência ou “modo de alerta”, liberando energia metabólica para a aquisição de novos conceitos e habilidades. Estudos mostram que crianças que possuem boa relação afetiva são mais seguras e apresentam um desenvolvimento intelectual e potencial cognitivo superior.

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 Impactos de Longo Prazo e a Responsabilidade Social

A primeira infância, especialmente os primeiros três anos, representa uma “janela de oportunidade” crítica, onde o organismo está biologicamente mais predisposto a receber influências externas. A falta de afetividade por parte de pais e educadores pode gerar uma repulsa pela aprendizagem e danos irreversíveis na estruturação da personalidade. Por isso, o afeto não deve ser visto como um luxo, mas como uma proteção neurobiológica indispensável. Cuidar de um cérebro em desenvolvimento é, antes de tudo, garantir um ambiente de aceitação e apoio que permita à criança alcançar o máximo de suas potencialidades.

 

 

 

 

 

Psicóloga Juliana da Rosa Mengue
CRP 12/4706

(48) 998350620
 juliana.darosamengue

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