A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos foi interpretada pela equipe do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como uma oportunidade política para superar a crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e recolocar o parlamentar no centro do debate nacional.
Nos bastidores da pré-campanha, integrantes do novo núcleo estratégico avaliam que o episódio permitiu a Flávio retomar a iniciativa política após semanas desgastado pelo caso “Dark Horse”, fortalecendo ainda a tentativa de associar sua imagem ao combate ao crime organizado e ampliando a ligação simbólica com o trumpismo.
Na visão interna, o senador precisava gerar fatos políticos próprios e retomar a capacidade de pautar a agenda pública.
A nova estratégia está sendo liderada pelo jornalista Alexandre Oltramari e pelo publicitário Eduardo Fischer, que assumiram na segunda-feira o comando da comunicação e do posicionamento político da pré-candidatura. Aliados afirmam que a dupla passou a defender um deslocamento do foco da crise Vorcaro para temas como crime organizado, política internacional e relações com os Estados Unidos.
De acordo com relatos ao GLOBO, o assunto foi tratado como prioridade desde a preparação da viagem a Washington. Interlocutores próximos ao senador dizem que Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo vinham trabalhando o tema há meses com integrantes do círculo republicano e do Departamento de Estado.
Na campanha, a avaliação é que a ofensiva contra as facções gerou exatamente o tipo de fato político que a pré-candidatura buscava desde a reformulação do marketing: um episódio capaz de reconectar Flávio ao eleitorado bolsonarista tradicional, tirar a campanha da defensiva e reforçar a proximidade internacional com Donald Trump.
Um conselheiro próximo afirma que a leitura interna é que a viagem aos EUA teve mais efeito político pelo simbolismo do acesso ao entorno de Trump e pela capacidade de influenciar anúncios concretos do que pela foto com o presidente americano. A expectativa agora é explorar a imagem de Flávio como interlocutor direto do trumpismo no Brasil.
O coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), disse que Flávio foi “mais efetivo” em Washington do que o governo Lula. Ele escreveu: “Parabéns, Flávio Bolsonaro, que foi mais efetivo numa viagem ridicularizada e subestimada pela grande mídia do que Lula, que, em 3 anos e meio de governo, relativizou o crime e tratou bandido como vítima.”
O deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que articulou a agenda nos EUA, também celebrou a medida e afirmou que ela ampliará o bloqueio financeiro das facções: “Vai ficar mais difícil deles fazerem suas movimentações financeiras e vão poder ser combatidos como Bin Laden.”
A deputada federal Julia Zanatta (PL-SC) disse que Flávio “nem é presidente ainda e já fez muito mais que o Lula”.
Horas após o anúncio do Departamento de Estado, Flávio publicou nas redes: “Grande dia”.
O Departamento de Estado informou ter designado CV e PCC como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs) e que pretende enquadrá-los como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) a partir de 5 de junho de 2026. A nota afirma que os dois grupos são “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil” e que sua influência se estende além das fronteiras.
Em entrevista após o encontro com Trump, Flávio disse que pediu pessoalmente ao presidente americano a classificação: “Enquanto o Lula veio à Casa Branca fazer lobby para traficante, eu vim fazer exatamente o oposto.” Ele afirmou que as facções “corrompem agentes públicos, intimidam testemunhas e coordenam atentados”, e que “quem faz isso não é gangue. É organização terrorista.”
Além da pauta do crime, Flávio discutiu tarifas comerciais, minerais críticos e investimentos estratégicos. Em coletiva, disse que um governo seu teria alinhamento político e econômico com Washington.
Fonte: O GLOBO























