Enquanto o governo dos Estados Unidos se prepara para anunciar possíveis novas tarifas sobre produtos brasileiros, uma decisão esperada para esta quarta-feira, empresas exportadoras e analistas acompanham com apreensão o desenrolar das negociações. O centro das atenções, no entanto, não está apenas nas salas fechadas de diplomatas e técnicos, mas também diante dos microfones — e o tom das declarações públicas tem gerado preocupação.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na última segunda-feira que “não vai ter tarifaço”, uma declaração de otimismo que, segundo especialistas em comércio internacional, pode não refletir a real situação das conversas. Embora o otimismo seja bem-vindo, a prudência costuma ser mais eficaz quando o assunto é política comercial.
No cenário internacional, cada palavra dita por líderes políticos é interpretada como um sinal por investidores, empresários e governos estrangeiros. Quando um chefe de Estado antecipa um resultado positivo, cria expectativas que, se não se confirmarem, aumentam a percepção de risco entre aqueles que mais precisam de previsibilidade: os exportadores, importadores e investidores.
A questão vai além de uma simples disputa tarifária. O processo conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abrange temas como comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, serviços de pagamento eletrônico, anticorrupção e questões ambientais. Trata-se de uma pauta ampla, que reflete a estratégia de Washington de usar a política comercial como ferramenta de política externa e competição geopolítica.
Esse contexto torna a comunicação presidencial ainda mais delicada. Há uma diferença fundamental entre discurso voltado para o público interno e aquele dirigido ao exterior. Em casa, os líderes falam para seus eleitores; lá fora, falam para mercados e governos que analisam cada declaração em busca de pistas sobre o rumo das negociações.
Países como Estados Unidos, União Europeia, Japão e Coreia do Sul costumam adotar uma postura de cautela durante tratativas comerciais sensíveis, deixando que equipes técnicas conduzam as discussões enquanto as lideranças evitam antecipar resultados ou estabelecer prazos. Isso não é questão de estilo, mas de estratégia.
A declaração de Lula contrasta com o que o próprio governo americano tem sinalizado. Na semana passada, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que Brasil e Estados Unidos ainda estão “muito distantes” em vários pontos e reiterou que a decisão final será tomada até o prazo legal de 15 de julho. Paralelamente, o governo brasileiro admite que ainda busca uma solução negociada e espera uma última rodada de conversas antes do anúncio.
Esses elementos mostram que a negociação permanece em aberto, mas também que o desfecho depende de variáveis que Brasília não controla sozinha. Em um cenário de incerteza, minimizar riscos antes da decisão oficial pouco contribui para fortalecer a posição negociadora do país.
Poucos estados brasileiros sentiriam tanto o impacto de uma deterioração nas relações comerciais com os EUA quanto Santa Catarina. Com uma economia altamente internacionalizada, o estado abriga empresas dos setores metalmecânico, madeireiro, moveleiro, alimentício, de máquinas, motores elétricos, autopeças e tecnologia. Seus portos são peças-chave da logística nacional.
Mesmo que alguns produtos fiquem de fora das novas tarifas, a simples incerteza já produz efeitos concretos. Empresas adiam investimentos, renegociam contratos, recalculam custos e revisam estratégias de exportação. Clientes estrangeiros começam a buscar fornecedores alternativos. O aumento do risco, por si só, gera impacto econômico.
Por isso, a discussão não interessa apenas aos grandes exportadores, mas a toda a cadeia produtiva, incluindo empregos e investimentos espalhados pelo estado.
Criticar a postura do governo não significa defender submissão aos interesses americanos ou aceitar automaticamente os argumentos de Washington. O Brasil tem todo o direito de defender seus interesses e contestar medidas consideradas injustas, usando os mecanismos previstos nas regras internacionais de comércio.
No entanto, defender interesses nacionais exige mais do que firmeza; exige disciplina estratégica. A experiência internacional mostra que países bem-sucedidos em disputas comerciais separam o discurso político da negociação técnica. Eles fazem declarações cuidadosamente calibradas, preservam canais diplomáticos e evitam criar expectativas que não dependam exclusivamente de suas decisões.
Se o tarifaço vier, haverá tempo para reagir. Se não vier, melhor ainda. Mas, até que a decisão seja anunciada, o Brasil ganha mais ao falar menos e negociar melhor.
Fonte: ND+


























