O primeiro seminário sobre doença celíaca na Assembleia Legislativa de Santa Catarina ocorreu nesta quinta-feira (16), com a participação de especialistas em diagnóstico e tratamento de pacientes que enfrentam um quadro de difícil detecção e monitoramento. O evento, apoiado pela Comissão de Saúde e pela Escola do Legislativo da Alesc, contou com a presença de profissionais de saúde, pacientes e familiares, já que se trata de uma doença autoimune que exige mudanças severas nos hábitos de todos que convivem com o diagnosticado. O objetivo foi discutir maneiras de garantir mais qualidade de vida a quem tem a condição confirmada.
A doença celíaca é uma condição autoimune grave desencadeada pela ingestão de glúten, proteína presente no trigo, cevada, centeio e aveia (por contaminação cruzada). Quando celíacos consomem glúten, o sistema imunológico ataca o intestino delgado, causando inflamação, destruição das vilosidades intestinais e má absorção de nutrientes essenciais. Isso exige rigor na dieta e no controle de alimentos, inclusive por contaminação cruzada, e nos ambientes, como as cozinhas. Especialistas apontam que os estudos sobre a doença têm pouco interesse da indústria farmacêutica por não haver medicamento que garanta a cura, embora as consequências em estágios avançados possam envolver riscos reais de desenvolvimento de linfomas e adenocarcinomas, tipos de câncer no intestino delgado, de difícil diagnóstico.
O médico Nelson Silveira Júnior, que é celíaco e só teve o diagnóstico confirmado após se especializar em gastroenterologia, destacou a importância de o Parlamento abrir espaço para o debate, pois “tudo o que gera exclusão exige inclusão”. Ele explicou que a doença celíaca é um processo autoimune com potencial genético, em que a susceptibilidade está ligada a fatores ambientais, como infecções, estresse, contaminações químicas ou cirurgias. A doença pode atingir mais de 1% da população, mas a grande maioria não sabe que tem o quadro ou não recebe tratamento adequado. O diagnóstico, impossível se o paciente suspender o consumo de glúten — aminoácido presente em cereais como trigo, centeio e cevada —, pode ficar encoberto por mais de 10 anos, com casos de diagnósticos tardios em pessoas acima de 70 anos. Fatores ambientais como corantes em alimentos ultraprocessados e estresse agravam a condição. A dificuldade de fechar o diagnóstico não é exclusividade brasileira, ocorrendo também em países economicamente desenvolvidos.
Os sintomas mais comuns incluem diarreia crônica, esteatorreia (gordura nas fezes), perda de peso e, em crianças, falha no crescimento, que pode surgir logo após a amamentação. Além desses, há manifestações na pele, como dermatites, e no sangue, como anemias por deficiência de ferro e zinco. Um paciente celíaco pode desenvolver osteoporose antes dos 40 anos, problemas no sistema reprodutivo, como infertilidade por baixa produção hormonal, atraso menstrual e abortos recorrentes em mulheres, convulsões em crianças, e em adultos, dificuldade de marcha, enxaqueca e demência — todos reversíveis com o tratamento adequado. No entanto, alguns celíacos não notam anormalidades no dia a dia, razão pela qual quem tem diagnóstico deve informar os familiares, devido à forte tendência genética.
Os principais filtros para detecção são o exame anti-transglutaminase, que identifica anticorpos produzidos pelo sistema imunológico em reação ao glúten, danificando o intestino delgado. Para adultos, a endoscopia é fundamental, tanto para o diagnóstico quanto para o acompanhamento de pacientes com quadro confirmado. “O iceberg celíaco é complexo; a maior parte não se vê, e a maioria dos agentes de saúde não tem tempo nem consegue perceber”, afirmou o médico, principal palestrante do evento.
A nutricionista Fabiana Torma Botelho, também celíaca, explicou que após o diagnóstico é essencial estabelecer dietas e condutas nutricionais. “É preciso pensar na história dos alimentos desde a plantação da semente até o prato do celíaco. Em todos os momentos, é preciso vigilância e cuidados. O paciente precisa ter um nutricionista para chamar de seu”. Ela alertou para cuidados em restaurantes e viagens, mesmo em hotéis que dizem atender clientes com restrições, e para o glúten oculto em medicamentos, suplementos, maquiagens e alimentos sem glúten que podem sofrer contaminação cruzada. “A doença celíaca é o camaleão da medicina”.
A psicóloga Dinadéia Brandalise, também celíaca, abordou os aspectos psicossociais e emocionais necessários para o reencontro com a saúde. A estudante de nutrição Catarina Miranda, da Associação de Celíacos da Serra Catarinense, defendeu o reconhecimento da doença como “questão de saúde pública, que envolve vigilância constante, pois uma simples contaminação pode trazer consequências severas”. A presidente da Federação Nacional dos Celíacos do Brasil (Fenacelbra), Heloísa Bade, diagnosticada há 23 anos e voluntária na associação de Joinville, destacou que a doença gera “dificuldade muito ampla, pois uma criança celíaca precisa de cuidados até na merenda escolar”, e relatou que muitos diagnosticados abandonam o tratamento.
Fonte: Assembleia SC

























