A indústria química brasileira iniciou 2026 com sinais de recuperação, mas a dependência de insumos comprados no exterior persiste como um entrave estrutural.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), a produção subiu 22,8% no primeiro trimestre ante o último de 2025. As vendas internas avançaram 22,7% e a participação da produção nacional no mercado passou de 42% em dezembro para 56% em março.
Apesar da melhora, o setor ainda não recuperou o terreno perdido. Em 2025, as importações representaram 49% do consumo de produtos químicos, ante apenas 7% no início dos anos 1990. O déficit comercial chegou a US$ 54,9 bilhões no ano passado.
No segmento de tintas, essa dependência impacta diretamente os custos, expõe as empresas à variação cambial e exige mais capital de giro. Os fabricantes precisam planejar estoques com meses de antecedência.
A Anjo Tintas, que vendeu 82 milhões de litros em 2025, exemplifica esse cenário. Insumos adquiridos na Ásia demoram cerca de 90 dias para chegar ao Brasil e, em alguns casos, o pagamento é feito antes do embarque.
O CEO Filipe Colombo explica que comprar de fornecedor nacional permite receber o material em até dez dias, enquanto a importação alonga o processo e compromete o caixa por três meses.
Para mitigar riscos, a Anjo ampliou seus estoques de produtos importados para um período de quatro a seis meses.
Nos últimos anos, problemas como falhas em fábricas de fornecedores, eventos climáticos, conflitos internacionais e oscilações cambiais provocaram interrupções no fornecimento e elevação de preços.
Colombo afirma que alguns concorrentes chegaram a ficar 40 dias sem determinados insumos, mas a Anjo conseguiu manter o abastecimento graças a uma gestão de suprimentos mais robusta.
O preço é outra fonte de preocupação. Parte das matérias-primas é importada e outra parcela tem cotação atrelada ao dólar, o que dificulta oferecer previsibilidade aos clientes.
Quando não é possível absorver aumentos, os reajustes são repassados ao longo da cadeia até chegar ao consumidor. Em um cenário de endividamento das famílias, a pintura residencial é uma despesa que pode ser adiada.
Para reduzir vulnerabilidades, a Anjo evita depender de um único fornecedor para insumos estratégicos. Embora um parceiro ofereça o melhor preço, parte das compras é mantida com uma segunda fonte homologada, mesmo que isso custe mais caro.
Importar também pode trazer economia significativa. Segundo Colombo, alguns insumos asiáticos chegam a ser 35% a 40% mais baratos que os nacionais, o que torna a compra externa uma opção vantajosa para determinados materiais.
A conta total, porém, inclui câmbio, prazo de transporte, estoques maiores e o capital imobilizado durante meses até a matéria-prima entrar na produção.
Por isso, a recuperação recente da indústria química é vista com cautela. A Abiquim aponta entraves de competitividade relacionados a energia, produtos químicos, logística e concorrência internacional.
A Anjo tem respondido com investimento contínuo. A empresa opera quatro fábricas, prepara uma quinta unidade e projeta crescimento de 10% em 2026, enquanto o mercado brasileiro de tintas deve avançar modestamente.
A companhia chegou a cogitar produzir no Paraguai, atraída por energia e mão de obra mais baratas e menos burocracia. No entanto, o frete para transportar matéria-prima e trazer o produto final anularia as vantagens, já que a tinta tem baixo valor agregado. A decisão foi manter os investimentos no Brasil.
Entre os projetos, estão mais de R$ 50 milhões em uma nova planta e a ampliação da capacidade da fábrica de tintas para flexografia. A empresa aguarda licenças há cerca de um ano e meio para dar sequência à expansão.
Colombo ressalta que os desafios vão além dos incentivos fiscais: custos estruturais elevados e processos lentos tornam o ambiente de negócios complexo.
Em paralelo, a Anjo aposta em inovação. Mantém oito laboratórios de pesquisa, desenvolvimento e controle de qualidade, com mais de cem químicos. Há mais de 20 anos, a empresa também possui parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Dessa colaboração surgiu, por exemplo, uma tinta para pisos à base de grafeno. A empresa também adaptou tecnologia de vernizes automotivos para produtos de madeira e desenvolveu tintas emborrachadas com propriedades térmicas, acústicas e de impermeabilização.
Apesar de ser mais conhecida pelo segmento imobiliário, as tintas para construção representam apenas 30% das vendas. Os outros 70% vêm de repintura automotiva, indústria metalmecânica e flexografia.
Essa diversificação ajuda em um mercado de crescimento lento. A marca é maior do que aparenta nas prateleiras, pois boa parte de sua produção é incorporada a automóveis, máquinas e embalagens sem identificação.
Aos 40 anos, a Anjo inicia uma nova fase de expansão justamente quando produzir no Brasil exige administrar variáveis que começam muito antes da fábrica. Para atingir o crescimento esperado em 2026, não basta vender mais tinta: é preciso garantir que a matéria-prima chegue, que o custo feche e que a produção não pare.
Fonte: Jovem Pan

























