O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gerou uma tensão diplomática com o Paraguai ao comentar que o país vizinho “resolveu invadir o Brasil” no contexto da Guerra da Tríplice Aliança, conflito conhecido no Brasil como Guerra do Paraguai.
A declaração ocorreu durante uma visita à fábrica de equipamentos militares Avibras, em Jacareí (SP), quando Lula defendia investimentos na indústria de defesa nacional. Ele afirmou que o Paraguai invadiu Corumbá, o Uruguai e a Argentina, e que a guerra durou cinco anos.
As palavras do presidente brasileiro provocaram reações imediatas no Paraguai. O Congresso paraguaio aprovou moções de repúdio, e o governo local convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para receber uma nota oficial de protesto.
Nesta quinta-feira (30/7), o chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano informou que o presidente Santiago Peña conversou por telefone com Lula sobre o episódio, em uma tentativa de conter o desgaste diplomático.
A Guerra da Tríplice Aliança foi o maior conflito armado da América do Sul, ocorrido entre 1864 e 1870. Teve início após a intervenção do Império do Brasil na guerra civil uruguaia, que o governo paraguaio de Francisco Solano López interpretou como ameaça ao equilíbrio regional.
Em resposta, o Paraguai declarou guerra ao Brasil e depois envolveu-se com Argentina e Uruguai, que formaram a Tríplice Aliança. O conflito terminou com a devastação do Paraguai, que perdeu cerca de 70% de sua população, segundo estimativas locais.
A Câmara dos Deputados paraguaia aprovou uma declaração oficial acusando Lula de “distorcer e minimizar” a história, ignorando a complexidade dos antecedentes e o sofrimento do povo paraguaio. O presidente da Câmara, Raúl Latorre, classificou a fala como leviana diante da maior tragédia do país.
O cientista político Gustavo Menon, ouvido pelo Metrópoles, explicou que a indignação vai além de uma divergência histórica. Para ele, a declaração toca em uma ferida profunda da memória paraguaia, pois sugere uma ação unilateral do Paraguai, minimizando o sofrimento vivido.
Menon destacou que a guerra é vista no Paraguai como uma catástrofe nacional, com perdas humanas massivas, devastação econômica e ocupação, um trauma coletivo que permanece vivo. Ele lembrou que historiadores apontam fatores como a intervenção brasileira no Uruguai e disputas geopolíticas na Bacia do Prata como antecedentes.
O historiador Victor Missiato, professor do Mackenzie Alphaville, afirmou que Lula misturou um fato real com uma interpretação incompleta. Ele disse que, embora o Paraguai tenha invadido o Brasil, havia interesses brasileiros e argentinos em conter o avanço paraguaio na região.
Missiato acrescentou que a intervenção brasileira no Uruguai alterou o equilíbrio regional e influenciou a decisão de Solano López de iniciar as ofensivas. Para ele, a crise deve ficar restrita ao campo diplomático, sem consequências econômicas ou geopolíticas devido à dependência entre os países, como o Mercosul e os acordos de Itaipu.
O episódio expõe sensibilidades históricas ainda abertas entre Brasil e Paraguai, mas analistas acreditam que as relações bilaterais, baseadas em fortes laços econômicos, devem superar o incidente sem maiores danos.
Fonte: Metrópoles


























