Os Correios seguem como a estatal federal com o pior resultado financeiro entre as empresas não dependentes do Tesouro, segundo o economista Murilo Viana. A empresa é a principal responsável pelo déficit do setor, que apresentou forte alta nos últimos anos.
O segundo maior problema está no grupo de empresas nucleares, com destaque para a Eletronuclear, que enfrenta os custos da obra parada de Angra 3 e a insuficiência das receitas das usinas em operação. Em seguida, aparecem Infraero, Casa da Moeda e companhias portuárias, com perdas menores.
Os dados do Banco Central mostram que o déficit das estatais federais não dependentes saltou de R$ 171,8 milhões em junho de 2022 para R$ 1,7 bilhão em junho de 2024. O pior número da série foi registrado em junho de 2025, com R$ 2,6 bilhões negativos. Em junho de 2026, o resultado foi de R$ 1,5 bilhão, ainda muito acima do patamar de quatro anos atrás, indicando que o desequilíbrio permanece elevado, embora tenha diminuído em relação ao pico.
Viana afirma que os Correios são, de longe, o principal ponto de atenção. “Não existe nenhuma outra estatal com um déficit da mesma magnitude”, disse à CNN. Ele avalia que mudanças estruturais dificilmente ocorrerão ainda em 2026, pois o tema envolve privatizações, concessões, redução de pessoal e reestruturação, assuntos sensíveis em ano eleitoral.
“Este ano ninguém quer tratar desse assunto. Nem governo nem Congresso. Mas, independentemente de quem vencer a eleição, essa discussão será inevitável, porque não há como manter essa sangria, principalmente nos Correios”, alertou. A empresa ainda é classificada como não dependente, ou seja, não usa recursos do Tesouro para despesas correntes, mas, se perder essa condição, passará a depender do Orçamento da União.
O economista ressalta que o maior risco é a estatal deixar de se sustentar financeiramente e se tornar dependente do orçamento federal. “O maior risco é justamente esse: a empresa deixar de conseguir se sustentar financeiramente e passar a depender do orçamento federal”, analisou.
A crise dos Correios é atribuída à combinação de problemas históricos de gestão com a transformação digital. “O monopólio postal perdeu relevância porque as pessoas passaram a usar WhatsApp, e-mail e boletos digitais. Esse é um choque tecnológico que atingiu diretamente o modelo de negócios da empresa”, afirmou Viana.
A estatal, por sua vez, deixou de investir em modernização justamente quando o mercado de encomendas se tornou mais competitivo, impulsionado pelo comércio eletrônico. “A empresa ficou com uma estrutura de custos muito elevada, deixou de investir e perdeu espaço justamente nos mercados mais rentáveis.” O fim gradual do subsídio cruzado, que usava a receita das grandes cidades para bancar serviços em áreas remotas, também contribuiu para o aprofundamento da crise.
Sobre o plano de reestruturação em andamento, Viana diz que ainda está longe de resolver o problema. Medidas como programas de demissão voluntária, venda de imóveis e reorganização administrativa renderam menos do que o esperado, enquanto a empresa segue precisando de aportes em tecnologia para voltar a competir. “O Correios não consegue fechar as contas nem antes de fazer os investimentos de que precisa. E sem investir, perde ainda mais competitividade.”
Viana lembrou que outros países enfrentam desafios parecidos com seus serviços postais e estudam alternativas como privatização, concessão ou parcerias público-privadas para manter o serviço universal. No caso do setor nuclear, o principal impasse é a usina de Angra 3. “A paralisação da obra gera elevados custos financeiros sem produção de energia. Por outro lado, interromper definitivamente o projeto também exigiria bilhões de reais para realizar o descomissionamento da estrutura já construída”, explicou.
Além disso, Angra 1 e Angra 2 também enfrentam dificuldades porque a receita obtida com a operação não cobre integralmente os custos. A Infraero, a Casa da Moeda e as empresas portuárias federais também têm resultados negativos, embora em escala muito menor.
No caso da Infraero, o economista afirma que a concessão de aeroportos deixou a empresa com ativos menos rentáveis, reduzindo sua capacidade de gerar receita. “Algumas autoridades portuárias federais enfrentam dificuldades semelhantes após mudanças na administração dos ativos”, concluiu.
Fonte: CNN Brasil


























