FUTUROS OPOSTOSArgentina de Milei supera Brasil em vários indicadores

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Em meio à troca de farpas entre o presidente argentino Javier Milei e integrantes do governo brasileiro, o ministro da Fazenda do Brasil provocou polêmica ao afirmar que o país vizinho tem risco-país, dívida pública e inflação mais altos que os brasileiros. A declaração, feita em entrevista a uma rádio, gerou reações e reacendeu o debate sobre a real situação econômica dos dois países.

Embora os números citados pelo ministro sejam verdadeiros, uma análise mais abrangente revela que a Argentina apresentou evolução significativa desde a posse de Milei, enquanto o Brasil enfrenta estagnação e até retrocessos em diversas frentes. O presidente argentino assumiu o cargo em dezembro de 2023, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu mandato em janeiro do mesmo ano. Com dois anos e meio de gestão, Milei coleciona avanços em indicadores-chave que colocam o país em posição favorável frente ao governo petista.

Essas estatísticas refletem diretamente as decisões de política econômica adotadas pela administração argentina, sem considerar outros aspectos em que o país vizinho já supera o Brasil historicamente, como analfabetismo e desenvolvimento humano. Na Argentina, a taxa de analfabetismo é de 1,9%, enquanto no Brasil chega a 4,9%, segundo dados dos institutos de estatística de cada país. O Índice de Desenvolvimento Humano também é superior na Argentina: 0,865 contra 0,805 do Brasil.

Um dos principais feitos do governo Milei é o superávit primário, que mede a saúde das contas públicas. Em 2024, o país registrou o melhor resultado de sua história, repetido em 2025, com superávit de 1,4% do PIB, equivalente a 11,77 trilhões de pesos, conforme o Instituto Nacional de Estatísticas argentino. Esse desempenho é fruto da política de déficit zero implementada pela gestão atual.

No Brasil, a realidade é oposta. O país fechou 2024 com déficit primário de 0,36% do PIB, cerca de R$ 43 bilhões, e em 2025 o déficit foi de 0,43%, ou R$ 55 bilhões, de acordo com o Banco Central. As projeções da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda indicam déficits de R$ 58,077 bilhões em 2026 e R$ 53,878 bilhões em 2027.

O crescimento econômico argentino também supera o brasileiro. Enquanto o PIB do Brasil cresceu 2,3% em 2025, conforme o IBGE, o da Argentina avançou 4,4%, segundo o Indec. A diferença é ainda mais notável quando se observa a evolução desde o início dos mandatos.

No campo fiscal, o FMI aponta que os ajustes promovidos por Milei reduziram a relação dívida pública/PIB de 154,6% em 2023 para uma projeção de 70,4% em 2026. No Brasil, a expectativa é de alta: 96,5% em 2026, ante 93,3% em 2025 e 87% em 2024.

Esse cenário favorável atraiu investidores. Em 2024, o índice S&P Merval, da bolsa de Buenos Aires, valorizou-se 114,91% em dólares, enquanto o Ibovespa, da B3, despencou 29,92%, a maior queda desde 2015 e o pior desempenho entre 21 mercados globais analisados pela consultoria Elos Ayta. Em 2025, o Ibovespa recuperou-se parcialmente com alta de 17,72%, enquanto o Merval caiu 7,95%.

Em 2026, a Argentina segue em trajetória positiva, impulsionada pela continuidade das reformas e pela aprovação da reforma trabalhista. O risco-país caiu de mais de 2.500 pontos em 2023 para menos de 500 atualmente. Em julho, a agência Moody’s elevou a classificação de crédito do país, e em junho o indicador do banco JPMorgan registrou queda de 450 pontos, menor nível desde 2018.

A liberdade econômica também avançou na Argentina. O país subiu 3,2 pontos no ranking da Heritage Foundation, alcançando 57,4, o maior crescimento entre todas as nações avaliadas. A fundação destacou que a Argentina, sob a presidência de Milei, melhorou significativamente seu índice nos últimos três anos, embora ainda ocupe a 23ª posição entre 32 países das Américas e a 106ª global.

O Brasil, por sua vez, está na 134ª posição no ranking geral e 28ª nas Américas. O relatório da fundação aponta que a presença do Estado na economia brasileira continua prejudicando o desenvolvimento do setor privado, com processos burocráticos e caros para abrir ou fechar empresas, além de regulamentações trabalhistas restritivas que afetam emprego e produtividade.

A diferença na estrutura estatal é evidente: o Brasil possui 31 ministérios, além de diversas secretarias e órgãos com status ministerial. Na Argentina, havia 18 ministérios, que foram reduzidos à metade por um decreto assinado por Milei em seu primeiro dia de governo.

Na área social, o Brasil também está em desvantagem. Segundo o Banco Mundial, 26,2% da população brasileira vivia abaixo da linha da pobreza em 2024, ante 24,1% na Argentina. Quanto à violência, a Argentina registrou em 2024 a menor taxa de homicídios em 25 anos, com 3,8 assassinatos por 100 mil habitantes, e em 2025 reduziu ainda mais o indicador.

No Brasil, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 contabilizou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, uma taxa de 19,1 por 100 mil habitantes. Os números mostram que o país vizinho conseguiu melhorar seus índices de segurança de forma significativa.

Especialistas avaliam que a experiência argentina sob Milei oferece lições valiosas para o Brasil, especialmente em termos de disciplina fiscal, abertura econômica e redução do Estado. No entanto, alertam que as diferenças institucionais e políticas entre os dois países exigem cautela na comparação direta.

Para o governo brasileiro, os dados argentinos servem de alerta, pois revelam que, em várias frentes, a Argentina está avançando enquanto o Brasil enfrenta desafios fiscais e econômicos. Ainda assim, há quem questione a sustentabilidade das medidas de Milei no longo prazo, dado o alto custo social de seus ajustes.

O contraste entre os dois países também se reflete nas expectativas do mercado. Enquanto investidores mostram otimismo com a Argentina, o Brasil enfrenta ceticismo devido à trajetória fiscal e reformas estruturais paradas. As projeções econômicas para os próximos anos indicam que a Argentina pode continuar superando o Brasil em vários indicadores, consolidando um novo cenário regional.

Diante desses números, fica claro que a avaliação do ministro brasileiro, baseada em apenas três indicadores, não captura a totalidade do quadro. A evolução argentina em áreas como superávit primário, crescimento econômico, dívida pública, risco-país e segurança demonstra que o país vizinho está em um caminho que, se mantido, pode transformar sua realidade econômica e social de forma duradoura.

Fonte: Gazeta do Povo

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