Os eleitores peruanos vão às urnas neste domingo para escolher o novo presidente do país, em um segundo turno que opõe o esquerdista Roberto Sánchez à direitista Keiko Fujimori. O pleito ocorre em meio a uma profunda crise institucional e descrédito popular.
O cenário lembra as eleições de 2021, quando Pedro Castillo, de quem Sánchez era ministro, derrotou Keiko no segundo turno. Castillo tentou um golpe meses depois, foi preso e condenado.
A disputa chega ao fim após um primeiro turno conturbado, com atraso de quase um mês na apuração, contestações e polêmicas. Keiko foi confirmada em primeiro lugar, mas o segundo colocado só foi definido após a contagem voto a voto entre Sánchez e o ultradireitista Roberto López Aliaga.
O órgão eleitoral peruano só confirmou Sánchez no segundo turno quando 99,94% das atas foram revisadas. Isso reduziu drasticamente o tempo de campanha.
A demora na apuração e as contestações, somadas ao número recorde de 35 candidatos, evidenciam a fragmentação política e a crise de confiança na democracia peruana.
O cientista político Lucas Berti, pesquisador do Observatório Político Sul-Americano, afirma que esse quadro não surge do nada. “É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos, na medida em que presidentes eleitos não conseguem governar”, disse.
O Peru teve nove presidentes em dez anos, quando o mandato é de cinco. Em uma democracia estável, seriam apenas dois líderes no período. Alguns não duraram nem cinco dias no cargo.
“A liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, por quase três anos, mas ela também caiu ao desagradar a oposição fujimorista no Congresso”, explicou Berti.
A Constituição peruana permite derrubar um presidente por “incapacidade moral ou física permanente”, e quem avalia isso são os parlamentares. “Se o Congresso não gosta de uma lei, pode acionar esse artigo e, em menos de 24 horas, derrubar um presidente eleito”, destacou o cientista político.
Para Berti, essa facilidade mostra a fragilidade institucional. A coalizão fujimorista, majoritária no Congresso, articula poderes no Legislativo, tribunais e Judiciário.
Keiko Fujimori lidera o fujimorismo desde 2008, quando fundou o partido Fuerza Popular, e tenta chegar ao Executivo. “Ela perdeu as três últimas eleições no segundo turno por margens apertadas. Agora chega com vantagem maior, mas a disputa está aberta”, disse Berti.
A crise política gerou também uma “desconfiança crônica” na democracia. Pesquisa do Latinobarómetro mostra que 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso; apenas 10% se dizem satisfeitos com a democracia. Há ainda indiferença quanto ao regime político.
A fragmentação é vista na facilidade de criar partidos. “São partidos pouco institucionalizados, sem raízes na sociedade, que surgem e somem. Candidatos trocam de coalizão com facilidade”, explicou Berti.
Isso reforça no eleitor a desconfiança e o temor de que os eleitos caiam facilmente. O próximo presidente, se for Sánchez, poderá enfrentar o mesmo padrão que derrubou antecessores, a menos que altere a correlação de forças no Parlamento.
Se Keiko vencer, pode ter mais governabilidade, pois seu partido tem maioria no Congresso, mas ainda terá que lidar com a crise política.
O maior desafio, segundo analistas, será convencer o eleitor a sair de casa e acreditar novamente na política peruana.
Fonte: G1
























