Kenisson Morais Brito, de 17 anos, residente em Vitória da Conquista, na Bahia, passou meses dedicando suas tardes ao laboratório da Escola Sesi Anísio Teixeira. Enquanto muitos jovens de sua idade se preocupavam com vestibulares, ele se concentrou em testar substâncias vegetais para eliminar microrganismos que prejudicam os grãos de café após a colheita.
O resultado desse esforço foi um composto natural que reduziu expressivamente a presença de fungos nos grãos, superando até mesmo o desempenho de produtos químicos sintéticos. O custo dessa alternativa é significativamente menor, e o projeto recebeu reconhecimento internacional, incluindo um prêmio de destaque em uma das maiores feiras científicas do mundo.
O trabalho, batizado de AnisGuard, foi desenvolvido com base no extrato de erva-doce, planta conhecida cientificamente como Pimpinella anisum. A proposta é oferecer uma opção natural para substituir os fungicidas convencionais no controle de Penicillium spp., um tipo de fungo que deteriora os grãos de café, comprometendo a qualidade, alterando o sabor e gerando toxinas que podem tornar lotes inteiros inviáveis para exportação.
A aplicação do extrato ocorre durante a lavagem dos grãos, logo após a colheita. Os componentes ativos da erva-doce agem na estrutura celular do fungo, inibindo sua multiplicação e reduzindo a produção de substâncias nocivas. Nos ensaios realizados em laboratório, a solução apresentou uma redução de até 83,8% na carga fúngica, superando o fungicida sintético utilizado como parâmetro de comparação.
Dentre as substâncias presentes na erva-doce, destacam-se o anetol e o estragol, ambos conhecidos por suas propriedades antimicrobianas, conforme evidenciado em diversas pesquisas científicas. Esses compostos danificam a membrana celular do fungo e interferem em seu processo metabólico, dificultando sua reprodução. Já o fungicida sintético age de maneira mais específica, o que pode levar ao desenvolvimento de resistência por parte do patógeno ao longo do tempo.
Uma vantagem adicional do AnisGuard é a complexidade de sua composição, que envolve múltiplos compostos ativos. Isso torna mais difícil para o fungo criar mecanismos de resistência, pois ele teria que se adaptar a diferentes formas de ataque simultaneamente. Esse aspecto foi detalhado por Kenisson em sua apresentação internacional.
Em termos de eficácia, o extrato de erva-doce alcançou uma redução de 83,8% na presença de Penicillium spp., resultado superior ao do fungicida sintético de referência. Quando se considera o custo, o tratamento com o extrato vegetal é até 4,3 vezes mais barato, tornando-o uma opção viável para pequenos produtores rurais que muitas vezes não têm acesso a produtos químicos caros.
Além do combate ao fungo, o projeto também propõe um benefício ambiental. Os resíduos gerados durante o processo de extração do extrato podem ser reaproveitados como adubo, contribuindo para a fertilidade do solo e promovendo um ciclo sustentável dentro da propriedade.
Para chegar à competição internacional, Kenisson percorreu um caminho que começou na Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), realizada na Universidade de São Paulo em março de 2026. Lá, seu trabalho foi premiado e ele foi selecionado para representar o Brasil na Regeneron ISEF, a maior feira de ciências pré-universitária do mundo, que ocorreu de 9 a 15 de maio em Phoenix, no estado do Arizona.
O evento reuniu cerca de 1.600 estudantes provenientes de 60 países, e a delegação brasileira contou com 21 jovens pesquisadores. Desse grupo, nove retornaram com alguma premiação. Kenisson conquistou o quarto lugar na categoria Ciências das Plantas, o que lhe rendeu um prêmio de US$ 600.
A ISEF, que existe há mais de 70 anos, é reconhecida como a principal competição de ciências e engenharia para estudantes do ensino médio no mundo. A participação dos brasileiros foi garantida por meio de suas seleções em feiras nacionais como a Febrace e a Mostratec-Liberato.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciou recentemente um investimento de R$ 40 milhões em um período de dois anos, destinado a incentivar feiras de ciências e ampliar o acesso de jovens à pesquisa científica.
Apesar dos resultados animadores, o caminho para a aplicação prática do AnisGuard ainda requer etapas adicionais. O projeto necessita de testes em campo, com volumes maiores de grãos e condições reais de armazenamento, para confirmar sua eficácia fora do ambiente controlado do laboratório. Para que o produto possa ser comercializado, será necessária a aprovação de órgãos reguladores como o Ministério da Agricultura (Mapa) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Mesmo sendo preliminares, os dados são promissores. A combinação de alta eficiência, baixo custo e baixo impacto ambiental coloca o AnisGuard como um potencial aliado para pequenos e médios produtores de café, especialmente em regiões onde o acesso a fungicidas sintéticos é limitado devido ao preço.
A história de Kenisson é um exemplo do que a ciência pode alcançar no interior do Brasil. Um jovem de escola técnica, com recursos modestos, mas com grande curiosidade e dedicação, demonstrou que projetos científicos podem competir em igualdade com os de instituições de elite em todo o mundo. Essa conquista não foi resultado de grandes investimentos, mas sim de observação atenta, método e persistência.
Se você conhece um jovem interessado em ciência, mostre a ele essa narrativa. As feiras científicas, como a Febrace e outras, podem ser o ponto de partida para carreiras promissoras, e a erva-doce, uma simples planta, pode ser o início de uma jornada que transcende os limites do laboratório escolar.
Fonte: O Antagonista

























