Um ano após o Supremo Tribunal Federal descriminalizar o porte de maconha para consumo pessoal, estabelecendo o limite de 40 gramas ou seis plantas fêmeas para distinguir usuário de traficante, os números da segurança pública revelam transformações profundas nas ruas brasileiras.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 mostra duas trajetórias que caminham em sentidos opostos. De um lado, os registros policiais relacionados a posse e uso de drogas sofreram uma retração de 18,3% no último ano, totalizando 107.986 ocorrências em 2025.
Do outro lado, as notificações por tráfico de drogas avançaram 18,5%, alcançando 207.058 casos — o patamar mais elevado desde o início da série histórica, em 2013.
A relação entre os dois delitos evidencia a magnitude da alteração. Em 2023, para cada pessoa flagrada por posse ou uso, havia praticamente um registro de tráfico. Já em 2025, essa proporção duplicou: agora são quase duas ocorrências de tráfico para cada usuário autuado.
Esses números não significam, necessariamente, que as pessoas tenham deixado de consumir drogas para se dedicar ao comércio ilegal.
Uma das hipóteses levantadas por especialistas é que parte dessa inversão reflete modificações na forma como as próprias polícias passaram a classificar as ocorrências. Com a decisão do STF de tratar o porte de até 40 gramas de maconha como infração administrativa, e não mais criminal, esses indivíduos deixaram de ser contabilizados como usuários.
De acordo com o anuário, há evidências de que uma parcela das pessoas que antes seriam enquadradas como consumidoras passou a ser registrada diretamente como traficante, mesmo em situações análogas às anteriores.
No entanto, a mudança nas abordagens policiais não explica inteiramente o fenômeno. O avanço das ocorrências de tráfico também acompanha a pressão exercida pelo mercado internacional de drogas, especialmente da cocaína.
O Brasil ocupa atualmente a posição de um dos maiores mercados consumidores da América do Sul e atua como corredor logístico para exportação destinada à Europa e à África. Com a produção global de cocaína batendo recordes, facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho ampliaram seu domínio sobre as rotas de tráfico e o varejo de entorpecentes dentro do país, o que também contribui para a elevação dos números.
Por trás dessas estatísticas, existe um sistema complexo de rotas, organizações criminosas e disputas territoriais que transcende qualquer dado isolado. Para compreender essa engrenagem em sua totalidade, a Brasil Paralelo lança gratuitamente “Entre Lobos 2026”, a maior produção já realizada sobre segurança pública no país. Mais de 50 especialistas revelam, pela primeira vez, o retrato completo do crime no Brasil. A estreia está marcada para 30 de julho.
Fonte: Brasil Paralelo Notícias

























