
A alotriofagia, popularmente conhecida como transtorno de pica, é um transtorno alimentar intrigante caracterizado pela ingestão persistente de substâncias não nutritivas — como terra, gelo, papel ou giz — por um período mínimo de um mês. Embora o nome remeta ao pássaro Pica pica, conhecido por coletar objetos diversos, a medicina revela que esse comportamento muitas vezes não é apenas uma “mania”, mas um sinal de alerta do corpo para a carência severa de nutrientes essenciais, especialmente o ferro e o zinco.
O Elo Biológico: Ferro e Zinco no Comando
Estudos indicam que a deficiência desses micronutrientes é um dos fatores etiológicos mais recorrentes nos diagnósticos. A ciência postula a existência de um mecanismo inato que acionaria o desejo por substâncias inadequadas quando o organismo detecta a ausência desses minerais.
- O papel do Ferro: A deficiência de ferro (anemia ferropriva) altera o paladar, o olfato e o metabolismo cerebral, induzindo hábitos alimentares atípicos como a pagofagia (consumo de gelo) e a geofagia (consumo de terra). Curiosamente, a administração de ferro costuma resolver o transtorno em muitos casos, frequentemente antes mesmo da correção total da anemia.
- O papel do Zinco: Níveis plasmáticos baixos de zinco estão diretamente correlacionados com a gravidade dos comportamentos alimentares atípicos. A falta desse mineral prejudica a homeostase e pode intensificar a compulsão por itens não alimentares.
Estatísticas de um Transtorno Invisibilizado
Apesar de ser um problema de saúde pública, a síndrome de pica permanece envolta em silêncio. Uma pesquisa revelou que 70,4% da população desconhece o transtorno, o que dificulta o diagnóstico. Os números, porém, mostram que os grupos de risco são bem definidos:
- Gestantes: A prevalência na América Latina varia de 20% a 44% durante a gravidez. No Malawi, a prática é tão comum que é considerada quase obrigatória em gestantes.
- Crianças: Representam entre 25% e 33% de todos os casos. Um estudo apontou que 3,7% das crianças manifestam o transtorno, muitas vezes associado a maior sensibilidade sensorial.
- Deficiência Intelectual: A frequência do picacismo chega a 84% em indivíduos com comprometimento cognitivo profundo.
O Ciclo Perigoso da Absorção
Um dos maiores riscos da síndrome de pica é o efeito paradoxal: enquanto a falta de minerais causa o desejo de comer terra ou argila, essas mesmas substâncias podem conter compostos que se ligam ao ferro e ao zinco no intestino, impedindo sua absorção e agravando a deficiência inicial. Além disso, o consumo de itens não nutritivos pode causar obstruções intestinais, intoxicação por metais pesados (como chumbo em tintas) e danos severos aos dentes.

Tratamento e Recuperação
O manejo da alotriofagia deve ser multidisciplinar, envolvendo médicos, psicólogos e nutricionistas. A base do tratamento clínico foca na suplementação de ferro e zinco e em intervenções dietéticas. Para auxiliar na recuperação, especialistas sugerem receitas de alto custo-benefício e ricas em minerais, como o omelete com cenoura (para otimizar a absorção de ferro via vitamina A) e o pé de moleque vegano (utilizando o amendoim como fonte de zinco, sem a interferência do cálcio do leite).
Identificar o transtorno precocemente é vital. Se o comportamento persistir por mais de um mês, a recomendação é buscar exames laboratoriais de sangue e ferritina para tratar a causa raiz: a fome química do organismo por nutrientes vitais.
Juliana da Rosa Mengue – Psicóloga CRP 12/04706
WhatsApp: (48) 998350620 – Instagram: juliana.darosamengue


























