O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou um voo secreto para deixar a Turquia em julho, após participar da cúpula da Otan, em Ancara. A operação, revelada pela imprensa americana, não foi inédita: nos últimos trinta anos, outros três mandatários do país também recorreram a estratégias sigilosas de deslocamento para garantir a própria segurança.
O jornal The Washington Post divulgou na segunda-feira (10) que Trump foi escondido em um caminhão de alimentos para embarcar em um avião alternativo, deixando o território turco em direção ao Reino Unido. As câmeras registraram o presidente embarcando no Air Force One, a aeronave presidencial oficial, mas, após entrar, ele foi transferido para um veículo de abastecimento conectado ao avião e, de lá, levado a outro jato militar americano, usado para o transporte de autoridades como o secretário de Guerra.
A troca de aeronaves ocorreu em resposta a uma ameaça iraniana contra Trump, conforme apurou a imprensa dos Estados Unidos. O Air Force One, com jornalistas e funcionários da Casa Branca a bordo, seguiu viagem sem o presidente, servindo de chamariz para desviar possíveis ataques.
Este não é o primeiro episódio do tipo na história recente. Em 2000, o então presidente Bill Clinton enfrentou situação semelhante durante uma viagem ao sul da Ásia. Na ocasião, os Estados Unidos tentavam mediar a disputa entre Índia e Paquistão pela região da Caxemira, no Himalaia.
O trecho mais arriscado foi o deslocamento entre os dois países. De acordo com o jornal The New York Times, foram utilizados três aviões distintos para confundir possíveis atacantes. Clinton apareceu diante das câmeras na porta de um avião militar, cumprimentando autoridades locais como se fosse embarcar, mas, pouco depois, entrou em um jato branco sem identificação.
A aeronave militar, o jato anônimo e um terceiro avião, com características semelhantes às do Air Force One, decolaram rumo ao Paquistão. O avião-isca chegou primeiro ao destino, e um agente do Serviço Secreto, com aparência semelhante à do presidente, desembarcou para despistar. Somente depois, o avião que realmente transportava Clinton aterrissou.
A ex-chefe da Associação de Correspondentes da Casa Branca afirmou ao Washington Post que o governo americano havia avisado antecipadamente sobre os riscos da viagem e que operações de segurança complexas estariam em andamento. Na ocasião, jornalistas e funcionários do governo também viajaram no Air Force One, sem saber que o presidente não estava a bordo.
Os ex-presidentes George W. Bush e Barack Obama também realizaram viagens sigilosas durante as guerras no Iraque e no Afeganistão. Em novembro de 2003, Bush visitou tropas em Bagdá, no Iraque, sem que a imprensa ou sua própria esposa fossem informadas. A Casa Branca chegou a anunciar que o presidente passaria o feriado de Ação de Graças em seu rancho no Texas.
Secretamente, Bush voou em um avião militar até a capital iraquiana, onde passou cerca de duas horas e meia com soldados americanos, participando de um jantar de Ação de Graças. Acompanharam-no apenas alguns assessores e um grupo restrito de jornalistas, que juraram manter segredo.
Obama repetiu a estratégia em 2010, quando visitou tropas no Afeganistão. Naquela ocasião, a Casa Branca informou que o presidente passaria o fim de semana em Camp David, o retiro presidencial nos arredores de Washington, mas ele, na verdade, embarcou em um voo noturno para Cabul.
A visita, mantida em sigilo até mesmo para o governo afegão, foi confirmada apenas com pouca antecedência. Obama discursou para cerca de 2.500 militares e civis em um aeroporto da capital e se reuniu com autoridades locais, permanecendo no país por apenas algumas horas, sempre sob forte esquema de segurança.
No caso de Trump, a ameaça iraniana foi revelada pelo jornal The New York Times em 24 de julho. Segundo a reportagem, os serviços de inteligência dos EUA obtiveram informações de que forças ligadas ao Irã planejavam atacar o presidente e o Air Force One. A avaliação foi considerada crível, levando o Serviço Secreto a recomendar a troca de aeronave.
A operação para retirar Trump da Turquia ocorreu em 8 de julho, logo após a cúpula da Otan. O presidente embarcou no Air Force One diante das câmeras, em Ancara, mas saiu do país em um avião militar sem identificação. O jato presidencial, com a comitiva e a imprensa, seguiu para o Reino Unido, onde Trump desembarcou normalmente.
O governo americano não confirmou oficialmente os detalhes da operação, mas a imprensa local detalhou o passo a passo: o caminhão de alimentos acoplado ao Air Force One, a transferência para o segundo avião e o voo até a base militar. A ação foi planejada para minimizar o risco de atentado, utilizando o avião presidencial como isca.
Especialistas em segurança avaliam que esse tipo de procedimento, embora raro, é adotado em situações de alta ameaça, quando há informações concretas de que a vida do presidente pode estar em perigo. A logística envolve coordenação entre o Serviço Secreto, as Forças Armadas e a Casa Branca, além de total sigilo sobre a rota real.
Os episódios envolvendo Clinton, Bush, Obama e Trump mostram que, em cenários de conflito ou risco iminente, os presidentes dos Estados Unidos não hesitam em lançar mão de subterfúgios para garantir a segurança da nação e de seu principal líder. A prática, embora criticada por alguns por falta de transparência, é considerada necessária diante das ameaças que pairam sobre o cargo máximo do país.
Fonte: G1

























