O programa de governo apresentado pelo PT para a candidatura de Lula à Presidência em 2026 se intitula como um projeto de “transformação do Brasil” e enfatiza a ideia de um “verdadeiro novo”. No entanto, essa promessa de renovação contrasta fortemente com a trajetória do candidato e com o próprio conteúdo do documento.
Lula busca um quarto mandato presidencial, e o plano resgata várias propostas que já estavam presentes na campanha de 2022, além de prever a continuação de políticas implementadas no governo atual. O ex-presidente já ocupou o Palácio do Planalto por três ocasiões: duas entre 2003 e 2010, e a atual, iniciada em 2023. Se vencer as eleições de outubro, poderá permanecer no cargo até 2030.
Mesmo com esse histórico, o partido aposta na ideia de novidade para definir um eventual próximo governo. A expressão “verdadeiro novo” aparece na apresentação política do projeto, que também menciona “transformação do Brasil”. O discurso, porém, é construído sobre um governo que já está em andamento e sobre políticas que o próprio documento promete manter ou ampliar.
Em vez de apresentar apenas novas medidas, o programa faz um balanço das ações adotadas desde 2023 e propõe o aprofundamento delas em um possível novo mandato. Essa lógica aparece em áreas como proteção social, trabalho, economia e habitação. Programas e políticas implementados ou retomados no governo atual são citados como pontos de partida para uma próxima etapa.
Assim, o “novo” proposto pelo PT não representa uma mudança de rumo, mas sim a continuidade e expansão do projeto que Lula já executa. Um dos exemplos mais claros dessa repetição está na área da segurança pública. O programa de 2026 retoma a criação de um Ministério da Segurança Pública, separado do Ministério da Justiça, com a transferência da gestão da Polícia Federal para a nova estrutura.
Essa proposta, no entanto, não é inédita. Ela já constava no programa de governo de Lula em 2022 e nunca saiu do papel. O atual mandato está chegando ao fim sem que o ministério tenha sido criado. Agora, a mesma medida volta a ser apresentada como compromisso para um eventual próximo governo.
A repetição levanta dúvidas sobre a ideia de novidade defendida no documento. Uma proposta que não foi implementada no mandato atual retorna ao programa eleitoral como promessa para o seguinte. A segurança pública não é o único caso em que uma medida não implantada por Lula reaparece.
Na área trabalhista, o PT reafirma a defesa do fim da escala 6×1 e da redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial. O documento afirma que o governo pretende continuar as articulações com o Senado para viabilizar a proposta. Mesmo sendo uma das bandeiras para o próximo mandato, a medida ainda depende da aprovação do Congresso. O texto foi aprovado na Câmara dos Deputados, mas segue sem acordo no Senado.
A mesma lógica aparece em outras áreas, onde o programa prevê continuidade, aperfeiçoamento e ampliação de políticas já existentes. O documento também dedica espaço para defender as realizações do governo iniciado em 2023, como a retomada de políticas sociais, a valorização do salário mínimo, ações de habitação e medidas econômicas.
Ao mesmo tempo em que apresenta essas iniciativas como resultados, o programa promete aprofundá-las. A contradição está justamente nessa combinação: o PT tenta apresentar um eventual quarto mandato como um novo ciclo, mas utiliza como argumento aquilo que já foi feito durante o terceiro mandato de Lula. O documento funciona em duas frentes: apresenta propostas para os próximos quatro anos e, simultaneamente, faz uma defesa do governo atual.
Outro ponto de contraste aparece na relação com o Congresso Nacional, abalada por constantes conflitos sobre as emendas parlamentares. O programa classifica o atual modelo de emendas como uma “grave distorção na elaboração e gestão do orçamento federal” e promete enfrentar o problema. A crítica, entretanto, parte de um governo que passou os últimos quatro anos negociando com o Congresso a execução de emendas e a distribuição de recursos.
O texto propõe mudar a dinâmica para um eventual próximo mandato, mas não apresenta a questão como uma ruptura completa com a política adotada durante o governo atual. A palavra “soberania” aparece 30 vezes no programa de governo de Lula. O tema ganha destaque em um momento específico: a crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos e as medidas tarifárias anunciadas pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros.
O programa afirma que o Brasil deverá fazer oposição a qualquer tentativa de subordinação a interesses estrangeiros e defende maior autonomia estratégica. O tema, portanto, também é apresentado como parte da identidade do eventual novo governo, embora esteja diretamente relacionado a uma crise internacional que se intensificou durante o atual mandato.
A proposta de criar um Ministério da Segurança Pública, que já era promessa em 2022 e não foi concretizada, é um exemplo de como o plano de 2026 repete compromissos anteriores. A redução da jornada de trabalho também é uma bandeira antiga que segue dependente de aprovação legislativa. A continuidade das políticas sociais é apresentada como realização, mas também como meta para o futuro.
O programa de governo de Lula, portanto, mescla balanço de feitos e promessas de avanço, sem apresentar uma ruptura clara com o que já foi feito. A ideia de “novo” esbarra na realidade de um governo em curso e em propostas que já haviam sido feitas antes. A relação com o Congresso, marcada por negociações sobre emendas, também é tratada como ponto de crítica, mas sem indicar mudanças efetivas no modelo atual.
No campo internacional, a soberania ganha centralidade em meio à crise com os EUA, mas a abordagem é de reforço da autonomia, sem romper com os acordos existentes. O plano, assim, parece mais uma consolidação do que uma transformação. As promessas de renovação convivem com a manutenção de estruturas e práticas já conhecidas dos governos anteriores do PT.
Fonte: ND+


























