Dívida das famílias de baixa renda pode frear consumo e
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ECONOMIADívida das famílias de baixa renda pode frear consumo e economia em 2027

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O peso das dívidas sobre as famílias mais pobres do Brasil pode se tornar um obstáculo para o crescimento econômico a partir de 2027. O endividamento das famílias atingiu um patamar recorde de 82% do total em julho de 2026, conforme levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O ônus recai de forma mais intensa sobre a base da pirâmide social, que também corresponde ao principal eleitorado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Entre os lares com renda de até três salários mínimos, 38,5% estão com contas em atraso. Especialistas alertam que, com o fim dos estímulos fiscais, essas famílias serão obrigadas a apertar o orçamento, o que deve comprimir o consumo e reduzir o ritmo da atividade econômica.

A expansão do crédito nos últimos anos, impulsionada pela digitalização bancária e por incentivos governamentais, cobra um preço desproporcional dos mais pobres, apontam analistas ouvidos pela Gazeta do Povo. O emprego aquecido e o impulso fiscal temporário têm adiado o impacto das pressões financeiras, mas o endividamento já é mais severo entre as famílias de baixa renda.

Os dados da CNC mostram que a proporção de famílias com compromissos financeiros subiu para 84,9% em julho, ante 81,2% no mesmo mês do ano anterior. A concentração do endividamento entre os mais pobres não é um fenômeno novo. Economistas do BTG Pactual destacam que, entre 2017 e 2022, houve um aumento da concentração nesse grupo, impulsionado pelas mudanças estruturais no sistema de pagamentos e pela digitalização bancária.

O cenário é ainda mais preocupante quando se observa a inadimplência. Enquanto os atrasos diminuíram entre as famílias de renda mais alta, aquelas com renda de até três salários mínimos foram as únicas a registrar crescimento dos atrasos na comparação entre julho de 2025 e julho de 2026. Atualmente, quase duas em cada cinco famílias dessa faixa estão nessa situação.

Para essas famílias, o atraso é particularmente danoso. A pesquisa da CNC indica que 17,8% delas afirmam não ter condições de quitar as dívidas em atraso, liderando o indicador de insolvência com folga. Em contraste, apenas 5,2% das famílias com renda superior a dez salários mínimos admitem que permanecerão inadimplentes.

O quadro financeiro das famílias brasileiras é mais frágil do que o observado na pré-recessão de 2014, período do governo Dilma Rousseff (PT). Dados do Banco Central mostram que, em março de 2014, o endividamento total representava 38,2% da renda disponível; agora, esse percentual chega a 49,7%.

O comprometimento da renda com juros e amortizações subiu de 22,9% para 29,3%, próximo à máxima histórica da série do BC. A deterioração patrimonial e o aperto sobre o fluxo de caixa das famílias estão hoje em níveis piores que os de 2014, o que acende um alerta para a sustentabilidade do consumo.

Especialistas explicam que o aumento do endividamento costuma anteceder a desaceleração da atividade econômica. Quando o endividamento se concentra entre os mais pobres, que tendem a gastar proporcionalmente mais e quase não têm reservas, o impacto sobre o consumo é maior. Um estudo do BTG Pactual, assinado por Mansueto Almeida e Thiago Berriel, ressalta que cada real gasto com o serviço da dívida reduz mais o consumo quando pesa sobre as famílias de menor renda.

Além disso, as famílias de baixa renda absorveram as modalidades de crédito de maior risco e custo, como cartão de crédito e crédito pessoal não consignado. Essa combinação, segundo o banco, reúne o pior dos dois mundos em termos de fragilidade financeira e virada de ciclo.

O crédito caro continua pesando no bolso do consumidor. Apesar dos cortes do Banco Central na taxa básica de juros, a Selic, o alívio ainda não chegou aos financiamentos. Fábio Bentes, economista-chefe da CNC, atribui a demora na redução dos juros cobrados pelos bancos ao risco de crédito elevado, confirmado pela alta inadimplência.

Enquanto a Selic caiu de 15% para 14% ao ano, a taxa média ao consumidor seguiu subindo e atingiu 64% ao ano em junho. A disparidade pesa especialmente sobre quem depende de crédito livre de alto custo, como cartão de crédito e empréstimo pessoal não consignado.

A digitalização bancária e o Pix ampliaram o acesso ao crédito, enquanto os estímulos fiscais e creditícios aumentaram temporariamente a renda disponível. Segundo o BTG Pactual, esse ambiente permitiu que as famílias de baixa renda contraíssem mais dívidas mesmo com juros elevados, mas também elevou sua vulnerabilidade quando os estímulos forem retirados.

É a partir dessa base frágil que partem as projeções para a atividade econômica. O consumo familiar, principal componente do PIB, está no centro do ajuste. O BTG projeta que um ajuste no orçamento das famílias pode levar a um crescimento bem mais moderado do consumo em 2027.

Com as famílias controlando mais as finanças, o banco estima que o nível de endividamento cairá de 49,4% da renda disponível em dezembro para 47,9% em dezembro do próximo ano. A retirada de incentivos fiscais levaria a uma queda no crescimento real do consumo familiar para 0,8%. Com a renda real avançando cerca de 2,0% e o mercado de crédito estável, a recuperação viria em 2028, com alta de 2,5%, sem depender de endividamento artificial.

Um cenário pior ocorreria se um eventual ajuste fiscal e de crédito desacelerasse a economia além do esperado em 2026. Com o fim dos estímulos e juros elevados, as famílias seriam forçadas a cortar dívidas preventivamente a partir do fim de 2026, reduzindo a busca de crédito em 5% do PIB em 2027. Nesse caso, o consumo teria uma retração de 0,4% no próximo ano e limitaria o crescimento em 2028.

O temor, entretanto, é que o governo adote novas medidas de estímulo fiscal neste ano, elevando o endividamento das famílias para 51% da renda disponível. Os economistas alertam que, nesse cenário, haveria uma contração de 6% no crédito em 2027, causando retração no consumo e levando a economia a uma recessão.

Fonte: Gazeta do Povo

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