Na manhã desta segunda-feira (22), a Câmara Municipal de Curitibanos sediou uma audiência pública que reuniu estudantes, professores, autoridades e representantes da comunidade para debater a implantação de um Hospital Veterinário Público na cidade. O evento, organizado pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) por iniciativa do deputado Marquito (Psol), lotou o plenário e deu novo fôlego a uma antiga reivindicação regional.
A audiência teve como proposta ampliar as discussões sobre o acesso da população a serviços clínicos, cirúrgicos e de diagnóstico para animais, fundamentada no conceito de Saúde Única, que enxerga a interdependência entre saúde animal, ambiental e humana. Além de atender uma demanda crescente dos moradores, o projeto busca reforçar as atividades de ensino, pesquisa e extensão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) no campus de Curitibanos, que mantém o curso de Medicina Veterinária há 14 anos.
Atualmente, a Clínica Veterinária Escola da UFSC realiza cerca de 4 mil atendimentos por ano, número que já representa o limite da estrutura existente. O curso conta com aproximadamente 500 alunos e abriga a primeira residência médica veterinária do estado de Santa Catarina.
O deputado Marquito afirmou que a pauta do hospital é acompanhada pela comissão desde 2023 e ganhou força durante a edição da Alesc Itinerante realizada em Curitibanos. “A Comissão de Meio Ambiente discute esse tema desde 2023. Conseguimos construir o entendimento sobre a necessidade e a urgência de instalar primeiro um hospital veterinário em Curitibanos, onde já existe o curso de Medicina Veterinária. Os efeitos desta audiência já começam a aparecer, com o anúncio da possível doação de uma área pelo município e o apoio de parlamentares federais para a captação de recursos”, declarou.
Para o parlamentar, além do impacto social, o hospital será fundamental para a formação dos futuros profissionais. “Um hospital público veterinário é um instrumento essencial para o processo pedagógico. Imagine um curso de Medicina sem um hospital para as atividades práticas. Estamos falando de um equipamento que atenderá uma grande demanda social e fortalecerá a formação dos estudantes”, completou.
O diretor do campus da UFSC em Curitibanos, professor Guilherme Jurkevicz Delben, destacou que a estrutura atual já não consegue suprir a demanda da região do Contestado. “Nossa clínica trabalha hoje em um platô. Não conseguimos ampliar os atendimentos e atender toda a demanda regional. O hospital veterinário é necessário tanto para a formação adequada dos nossos alunos quanto para atender uma necessidade regional relacionada à saúde pública e ao controle de zoonoses”, afirmou.
Delben lembrou que a UFSC implantou em Curitibanos a primeira residência médica veterinária de Santa Catarina. “Hoje temos apenas duas especialidades funcionando justamente pela ausência de um hospital veterinário. Precisamos dessa estrutura para ampliar a formação dos profissionais e oferecer um atendimento ainda melhor à comunidade”, explicou. Segundo ele, já existem projetos elaborados para a construção de um hospital com área entre 3 mil e 3,5 mil metros quadrados, capaz de realizar cerca de 20 mil atendimentos anuais.
A coordenadora da Clínica Veterinária Escola e dirigente do Fórum Nacional dos Dirigentes de Hospitais Veterinários Universitários (FORDHOV), professora Vanessa Sasso Padilha, ressaltou que a equipe técnica está preparada, mas enfrenta limitações estruturais. “Realizamos, em média, 4 mil atendimentos por ano entre cães, gatos, equinos, bovinos e animais exóticos. Temos profissionais capacitados, mas não temos espaço físico suficiente para ampliar os atendimentos”, disse.
Segundo a professora, a clínica conta atualmente com apenas quatro ambulatórios, o que limita o número de atendimentos simultâneos. “Temos 15 docentes atuando na área clínica, além de residentes, pós-graduandos e técnicos veterinários. Nossa maior dificuldade hoje é justamente a falta de estrutura física para suprir a demanda existente”, acrescentou. Ela também mencionou que os atendimentos de grandes animais, como bovinos, ovinos e suínos, muitas vezes precisam ser realizados a campo por falta de instalações adequadas para internação e acompanhamento.
A médica veterinária residente Giovana Martinez de Andrade Orteiro, de Ribeirão Preto (SP), formada pela UFSC Curitibanos, relatou os desafios enfrentados diariamente por estudantes e profissionais devido à limitação da estrutura atual. Segundo ela, a clínica escola consegue realizar atendimentos básicos, mas muitos casos mais complexos precisam ser encaminhados para outros serviços por falta de equipamentos e de um espaço adequado. “A estrutura que a gente tem hoje é baseada em atendimentos mais básicos. Como a residência inclui clínica médica e cirúrgica e passamos a atender emergências, precisamos de equipamentos essenciais. Hoje, por exemplo, estamos sem aparelho de radiografia, o que faz com que pacientes vítimas de atropelamento e com suspeita de fraturas precisem ser encaminhados para exames externos”, explicou.
Giovana destacou ainda que a inexistência de atendimento 24 horas compromete tanto a recuperação dos pacientes quanto a rotina da equipe. “Temos muitos pacientes que necessitam de suporte contínuo, mas hoje precisamos recebê-los às 8h e liberá-los às 18h. Dependemos de que os tutores realizem todos os cuidados durante a noite, e muitas vezes o animal retorna em condições piores. Um hospital funcionando 24 horas faria toda a diferença”, afirmou. Além dos impactos na assistência, Giovana ressaltou os prejuízos para a formação acadêmica dos residentes. “Acabamos encaminhando muitos casos que poderiam fazer parte do nosso aprendizado. O procedimento é realizado por outros profissionais e nós acabamos tendo acesso apenas ao resultado final. Isso afeta diretamente nossa formação”, concluiu.
Fonte: Assembleia SC



















