O sociólogo e professor aposentado da USP José Pastore afirmou, em entrevista, que a eventual aprovação do fim da escala de trabalho 6×1 pode resultar em um “desastre social”. Para ele, os ajustes econômicos necessários para absorver a medida serão arcados principalmente pelos próprios trabalhadores, que teoricamente seriam os beneficiados.
Pastore explicou que a alteração na jornada impacta todo o setor produtivo, não apenas os que atuam na escala 6×1 ou cumprem 44 horas semanais. O aumento estimado na folha de pagamento formal seria de cerca de 10%, percentual muito superior aos reajustes salariais comuns, que ficam entre 1% e 2% acima da inflação.
O sociólogo elencou quatro formas de reação das empresas diante desse aumento de custos. A primeira é o repasse para os preços, o que reduz o poder de compra dos trabalhadores mesmo que os salários sejam mantidos. “Se o preço no supermercado sobe, o poder de compra dele cai”, exemplificou.
A segunda possibilidade é a demissão de funcionários mais antigos e com salários mais altos, substituídos por profissionais mais baratos. Isso aumentaria a rotatividade e prejudicaria especialmente os trabalhadores mais velhos.
A terceira alternativa seria a migração de parte das contratações para a informalidade, retirando dos trabalhadores qualquer proteção legal. Por fim, a quarta opção envolve automação e redução das operações, diminuindo as oportunidades de emprego e gerando desemprego.
Pastore também alertou para efeitos indiretos ainda pouco avaliados. Com a escala 5×2, os trabalhadores circularão menos, reduzindo a demanda por serviços como lanchonetes e transporte público. “A demanda para a lanchonete, onde o pessoal costuma comer quando ia seis dias, e agora vai cinco, cai a receita”, disse.
Essas empresas, além de arcar com o custo de contratar mais funcionários, sofreriam redução de receita — perda que, segundo ele, não pode ser recuperada. Para Pastore, o conjunto de desdobramentos configura uma mudança “muito complexa e muito extensa”, com “muitas consequências sociais preocupantes”.
“Todos esses ajustes vão recair nas costas dos trabalhadores, não dos parlamentares”, concluiu o sociólogo. Ele defende que a discussão precisa considerar os impactos reais sobre o emprego e a renda.
Fonte: CNN Brasil























