RELAÇÕES VIRTUAISAplicativos de namoro transformam relações afetivas no Brasil

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Não há estatísticas oficiais sobre o número de brasileiros cadastrados em aplicativos de relacionamento, já que as empresas do setor mantêm esses dados em sigilo. No entanto, um levantamento realizado em 2024 pela Mobile Time e Opinion Box apontou que aproximadamente 23% dos donos de smartphones no país já encontraram pessoalmente alguém conhecido por meio dessas plataformas.

Entre os jovens de 16 a 29 anos, a proporção sobe para 29%. Na faixa dos 30 aos 49 anos, o índice é de 25%, enquanto entre os maiores de 50 anos cai para 14%.

Os aplicativos mais populares no Brasil incluem Tinder, Bumble e Happn. A Happn informou que o país lidera o ranking global de usuários, com mais de 33 milhões de cadastrados, de um total global superior a 180 milhões.

“O Brasil é o nosso maior público no mundo. A receptividade da plataforma no mercado brasileiro continua excelente e em rápido crescimento: apenas nos últimos três anos, registramos um aumento de 10 milhões de usuários no país”, afirmou Karima Ben Abdelmalek, CEO e presidente do Happn.

Já Bumble e Tinder não divulgaram números de cadastros, mas destacaram que o Brasil é um de seus mercados mais estratégicos e ativos globalmente.

O crescimento dos aplicativos de namoro reflete mudanças sociais profundas. A rotina acelerada, as longas jornadas de trabalho, as transformações nos modelos familiares e a digitalização das relações criaram um ambiente propício para o sucesso dessas plataformas.

A mecânica dos aplicativos é direta: perfis com fotos, descrições curtas e algoritmos que sugerem combinações. Contudo, os impactos sociais vão muito além da tecnologia.

Hoje, uma pessoa pode conversar com dezenas de estranhos ao mesmo tempo, encontrar alguém de outra cidade, estado ou país e marcar um encontro sem qualquer vínculo prévio.

Foi o que ocorreu com a empreendedora brasileira Raellyn Ritter Vilela, de 30 anos. Desde julho de 2025, ela mora na Ásia e, há cerca de sete meses, conheceu o namorado Oleksandr por um aplicativo. Ele é ucraniano e vive na Inglaterra; sem a plataforma, os dois dificilmente se cruzariam.

“Baixei o aplicativo pela primeira vez em julho, quando saí do Brasil. Como estava viajando por países da Ásia, achei que seria uma forma de conhecer pessoas. Conheci muita gente legal e tive alguns encontros até que em novembro dei ‘match’ e marquei um encontro com o Oleksandr, que estava de férias na Tailândia”, relatou.

Apesar de terem gostado do encontro, Vilela já tinha viagem marcada para uma ilha no dia seguinte e seguiu seu roteiro. Eles continuaram trocando mensagens e passaram a conversar por videochamada. Cinco meses depois do primeiro encontro, o casal se viu novamente, dessa vez passando doze dias de férias na Espanha.

“Começamos a namorar e, depois de alguns meses, fiquei 20 dias na casa dele na Inglaterra, onde nos conhecemos melhor. Ele já planejava se mudar para a Tailândia, estava em transição de carreira, e percebemos que havia a possibilidade de vivermos juntos. Em dezembro vamos ao Brasil para eu apresentá-lo à minha família e, no ano que vem, vamos morar juntos”, contou.

No entanto, o sucesso dos aplicativos não eliminou os problemas. Ao lado de histórias como a de Vilela, surgem relatos de cansaço, frustração e até queda na autoestima.

Uma pesquisa da Forbes Health (2025) revelou que 78% dos usuários já se sentiram emocionalmente esgotados com essas plataformas, o que indica uma busca por relações mais autênticas e menos automatizadas.

Entre os principais motivos do cansaço está a dificuldade de estabelecer uma conexão real (40%), seguida pela decepção com outras pessoas (35%) e pela rejeição (27%). Conversas repetitivas com diferentes pessoas (24%), o hábito de deslizar perfis (22%) e o tempo gasto nos aplicativos (21%) também contribuem.

A pressão para manter uma imagem idealizada (20%) e o esforço de gerenciar múltiplos perfis (18%) aparecem como causas adicionais. As mulheres são as mais afetadas: 80% relataram esgotamento, contra 74% dos homens.

“O problema não é só a superficialidade da escolha, mas o que esse modelo faz com o comportamento depois. Quando se tem acesso ilimitado a novos perfis, qualquer obstáculo numa conversa vira motivo para desistir. Não vale a pena investir quando a próxima opção está a um swipe de distância. Isso criou uma geração que sabe iniciar contato muito bem e se comprometer muito mal. A entrada ficou fácil demais e a saída virou o padrão”, explicou Êdella Nicoletti, psicóloga especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT).

Diante do cansaço dos usuários, as empresas tentam inovar com perfis mais detalhados e recursos voltados a relacionamentos de longo prazo. Ao mesmo tempo, cresce o desejo de equilibrar experiências online e offline: festas, eventos temáticos, grupos de interesse e atividades presenciais voltam a ganhar espaço como alternativas ou complementos às plataformas.

Especialistas, porém, acreditam que os aplicativos continuarão tendo um papel relevante na vida afetiva dos brasileiros. Assim como gerações anteriores tinham suas histórias iniciadas em bailes ou corredores de escola, a geração atual coleciona relatos que começam com uma notificação no celular.

“O que as pessoas parecem buscar cada vez mais é o que os próprios aplicativos prometeram: conexão genuína, autenticidade e a experiência de ser visto além de uma fotografia. Isso reforça a necessidade de uma educação na interação com as ferramentas digitais”, acrescentou Dornelles.

Fonte: O Sul

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