
A curiosidade de uma criança ao levar um objeto à boca é comum, mas quando o desejo de ingerir substâncias não alimentares persiste e se torna compulsivo, estamos diante de um quadro clínico conhecido como alotriofagia, síndrome de pica ou picacismo. O termo “pica” deriva do nome científico do pássaro Pica pica (pega), conhecido por coletar e ingerir diversos objetos sem distinção nutritiva. Este transtorno é caracterizado pela ingestão de materiais que não possuem valor nutricional por um período mínimo de um mês.
Quem são os mais afetados?
Embora possa atingir qualquer pessoa, a síndrome é mais prevalente em grupos específicos:
- Gestantes: Estima-se que cerca de 20% a 33,3% das grávidas possam manifestar o transtorno, muitas vezes impulsionado por alterações sensoriais ou necessidades nutricionais. Na América Latina, estudos apontam uma prevalência que varia de 20% a 44% durante a gravidez.
- Crianças: Representam de 25% a 33% dos casos. Um estudo específico com crianças indicou uma prevalência de 3,7%, associada a maior sensibilidade sensorial.
- Deficiências Intelectuais: A incidência é altíssima em indivíduos com comprometimento cognitivo profundo, chegando a 84% nesse grupo.
As Causas Principais: Do Corpo à Mente
A ciência ainda busca uma explicação única, mas a etiologia da alotriofagia é considerada multifatorial. As causas principais dividem-se em três pilares:
- Deficiências Nutricionais: A falta de minerais essenciais, especialmente ferro (anemia ferropriva) e zinco, é o fator biológico mais recorrente. A deficiência de ferro pode alterar o paladar e o metabolismo cerebral, induzindo o consumo de substâncias como gelo (pagofagia) ou terra (geofagia).
- Fatores Psicológicos e Psiquiátricos: O transtorno está frequentemente associado ao estresse, traumas (como abuso ou separação), depressão, ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Também é comum em pacientes com autismo e esquizofrenia.
- Aspectos Culturais e Sociais: Em algumas regiões, a ingestão de terra é um hábito aprendido ancestralmente ou ligado a rituais de fertilidade. Além disso, a pobreza extrema e a fome podem levar indivíduos a ingerir substâncias estranhas para buscar uma sensação de saciedade.

Radiografia do Desconhecido
Um dado alarmante revelado em pesquisas é que 70,4% da população geral desconhece o que é a alotriofagia, o que dificulta o diagnóstico precoce e o tratamento adequado. Muitos pacientes escondem o hábito por vergonha ou medo de julgamento.

Riscos e Tratamento
A prática não é inofensiva e pode causar obstruções intestinais, intoxicação por metais pesados (como chumbo em tintas), infecções parasitárias e danos severos aos dentes.
O tratamento deve ser multidisciplinar, envolvendo médicos, nutricionistas e psicólogos. A abordagem inclui a suplementação de nutrientes deficientes e terapia cognitivo-comportamental para desaprender o hábito compulsivo. Se você ou alguém próximo apresenta esses sinais, a busca por ajuda profissional é o primeiro passo para a recuperação.
Juliana da Rosa Mengue | Psicóloga CRP 12/04706
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