Em meio a um severo processo de reestruturação que inclui o fechamento de quatro fábricas na Europa e a demissão estimada de até 100 mil trabalhadores, a Volkswagen avalia uma guinada estratégica inédita em seus 89 anos de história. A montadora alemã estuda transformar uma de suas principais unidades industriais em um centro de fabricação de peças militares e sistemas de defesa.
A planta de Osnabrück, situada no estado da Baixa Saxônia, pode ser readaptada com o aval do governo regional para a produção de armamentos. De acordo com informações do jornal alemão Hase Post, o governo estadual analisa a possibilidade de adquirir uma participação direta na instalação para viabilizar sua migração para o setor bélico.
A proposta, já em estágio avançado, prevê uma aliança estratégica com a Rafael Advanced Defense Systems, estatal israelense de defesa. Caso o acordo se concretize, a fábrica passará a fabricar componentes essenciais para o sistema de blindagem e defesa aérea Iron Dome (Domo de Ferro).
O escopo de produção incluiria veículos militares pesados de transporte, geradores e bases de lançamento. Contudo, mísseis e ogivas ativas continuarão sendo produzidos exclusivamente em território israelense. As demissões na Volkswagen serão executadas em duas etapas de até 50 mil funcionários cada.
O CEO da Volkswagen, Oliver Blume, impôs uma condição inequívoca para a transição de Osnabrück: a montadora não fabricará armas de fogo nem munições. Em vez disso, a ideia é canalizar a capacidade técnica e a engenharia da planta para a produção de veículos de transporte militar e sistemas de defesa.
Diante do cenário de segurança na Europa, o executivo argumenta que essa mudança também representa uma contribuição da empresa para a estabilidade democrática e a soberania do continente. Blume já confirmou oficialmente os cortes de até 100 mil postos de trabalho, que ocorrerão em duas rodadas.
Cerca de quatro meses atrás, em março, a Volkswagen havia negado veementemente qualquer plano de converter a unidade de Osnabrück para a área militar. Na ocasião, a empresa emitiu uma nota oficial afirmando que “continuava descartando a produção de armas” e que as notícias sobre uma mudança de rumo não passavam de especulações.
No entanto, a reestruturação e a redução de custos lideradas por Oliver Blume podem ter alterado a posição da companhia. A decisão de encerrar definitivamente a fabricação de automóveis de passeio em Osnabrück a partir do verão europeu de 2027 já está tomada, após 126 anos de tradição automotiva na região.
Sem um novo produto viável no segmento civil, a infraestrutura da fábrica de Osnabrück e o conhecimento técnico de seus aproximadamente 2.300 funcionários tornaram-se alvo da crescente demanda do setor de defesa na Europa.
O governo estadual da Baixa Saxônia estuda aplicar o mesmo modelo usado no estaleiro Meyer-Werft, no qual o poder público assumiu uma participação temporária para evitar a falência. No caso de Osnabrück, a Volkswagen pretende reduzir sua participação no local para menos de 50%, tornando-se sócia minoritária ao lado da estatal Rafael e do governo alemão.
Apesar do apelo comercial e do apoio do governo federal, que busca ampliar sua capacidade bélica diante do contexto geopolítico europeu, o negócio enfrenta obstáculos complexos. O fundo soberano do Catar, que possui uma participação expressiva com poder de voto na Volkswagen AG, demonstrou forte resistência a uma parceria direta com uma empresa de defesa israelense.
As negociações continuam em andamento e devem definir nos próximos meses se a icônica fábrica que um dia produziu conversíveis e carros esportivos será convertida em uma peça-chave da defesa aérea europeia.
Fonte: ND+


























