A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos deu sinal verde, na noite de quarta-feira, para um projeto de lei de defesa avaliado em US$ 1,15 trilhão, o maior montante já destinado a gastos militares na história do país. A aprovação representa uma conquista para os republicanos, que pretendem reestruturar o Departamento de Defesa alinhado às diretrizes do presidente Donald Trump. Contudo, a votação revelou divisões profundas entre os partidos, indicando possíveis dificuldades para a aprovação final da medida.
Com 216 votos favoráveis e 212 contrários, a proposta foi rejeitada pela maioria dos democratas — apenas seis parlamentares da oposição votaram a favor. Muitos legisladores democratas argumentaram que não poderiam, em consciência, apoiar um texto que, na prática, concede a Trump poderes para continuar a guerra contra o Irã sem a devida autorização ou supervisão do Congresso. A versão do projeto que tramitou no Senado também foi bloqueada pelos democratas na semana passada, e os republicanos não dispõem de votos suficientes para superar essa resistência.
O impasse prepara o terreno para um confronto em torno da Lei de Autorização da Defesa Nacional, que tradicionalmente conta com amplo apoio bipartidário. Para que a legislação chegue à mesa de Trump antes do fim do ano, serão necessárias revisões significativas que atendam às demandas de ambos os partidos.
O projeto prevê aumento salarial para os militares, mais verbas para sistemas de defesa antimísseis e novos investimentos em minerais estratégicos. A extensa legislação também inclui disposições sobre o uso de inteligência artificial pelas Forças Armadas. Além disso, propõe a mudança do nome do Departamento de Defesa para Departamento da Guerra, uma iniciativa de Trump e do secretário de Defesa, Pete Hegseth, para reforçar a imagem de força e a missão central das Forças Armadas.
Os republicanos comemoraram a aprovação como mais um passo para consolidar a agenda legislativa de Trump. O presidente da Câmara, Mike Johnson, destacou que o projeto incorpora mais de 65 ordens executivas e propostas do governo Trump. A proposta, apoiada por todos os republicanos exceto sete, proporciona o maior aumento anual nos gastos militares da história moderna, elevando o orçamento de defesa em mais de US$ 227 bilhões em relação ao ano anterior. Segundo os republicanos, o incremento é necessário para preparar os EUA para um cenário global mais perigoso.
O deputado Mike Rogers, do Alabama, presidente da Comissão de Serviços Armados e autor do projeto, afirmou que, pela primeira vez em 40 anos, o orçamento reflete o custo real da capacidade de dissuasão americana. Ele argumentou que décadas de subinvestimento nas Forças Armadas deixaram o país sem condições de produzir equipamentos militares com rapidez suficiente para sustentar uma guerra prolongada, citando a redução da indústria de defesa e dos estoques de armas.
Já o deputado Adam Smith, de Washington, principal democrata na comissão, votou contra a proposta e criticou os republicanos por transformarem um projeto antes bipartidário em uma medida divisiva. Smith afirmou que, independentemente dos aspectos positivos, a NDAA continua apoiando um Departamento de Defesa que o presidente está usando para conduzir a guerra, tornando difícil seu apoio.
O debate ocorre em meio à expectativa republicana de que o conflito com o Irã estivesse perto do fim. Parlamentares acreditavam que um cessar-fogo e um memorando de entendimento no mês anterior dariam espaço para focar em pautas domésticas antes do recesso de verão. No entanto, a guerra voltou ao centro das atenções quando os congressistas se preparavam para deixar Washington e fazer campanha para as eleições de meio de mandato.
Smith afirmou que os republicanos bloquearam emendas democratas e moldaram a legislação para priorizar gastos militares em detrimento de programas sociais essenciais. Ele criticou o objetivo do governo de elevar os gastos militares para mais de US$ 1,5 trilhão por meio de três medidas — o projeto de defesa, um projeto suplementar de gastos emergenciais para a guerra com o Irã e um futuro pacote de reconciliação orçamentária — considerando a estratégia financeiramente insustentável. “Estamos cortando recursos do Medicaid e de outros programas de saúde para financiar isso”, disse, acrescentando que a conta simplesmente não fecha.
Smith também condenou os republicanos por financiarem uma guerra em expansão contra o Irã sem reafirmar o papel constitucional do Congresso de autorizar e fiscalizar o conflito. Segundo ele, os parlamentares são instados a aprovar valores cada vez maiores sem um debate significativo sobre estratégia ou objetivos.
Os únicos democratas a apoiar a proposta foram Jared Golden (Maine), Marie Gluesenkamp Perez (Washington), Adam Gray (Califórnia), Don Davis (Carolina do Norte), Vicente Gonzalez e Henry Cuellar (ambos do Texas). Do lado republicano, votaram contra Anna Paulina Luna (Flórida), Chip Roy (Texas), Thomas Massie (Kentucky), Eli Crane (Arizona), Tim Burchett (Tennessee) e Josh Brecheen (Oklahoma).
A proposta aprovada pela Câmara integra um esforço mais amplo do governo Trump para elevar o financiamento militar a níveis inéditos. Defensores argumentam que a medida é necessária para expandir rapidamente as Forças Armadas diante das ameaças simultâneas de China, Rússia, Irã e outros adversários.
Em audiência no Senado, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, classificou a estratégia como um “investimento de uma geração” e afirmou que o pedido de recursos emergenciais é uma “injeção urgente e necessária” em meio a uma guerra que já custou US$ 37,5 bilhões. “Sem esses recursos, enfrentaremos deficiências críticas”, testemunhou.
Nos últimos dias, Trump abandonou o tom otimista sobre uma solução diplomática e passou a emitir advertências severas ao Irã. Na quarta-feira, ele ameaçou bombardear infraestrutura iraniana caso o país ataque embarcações no Estreito de Ormuz. “Sempre que o Irã disparar contra um navio, os EUA bombardearão e destruirão uma ponte ou usina de energia, incluindo na capital Teerã”, escreveu em sua rede social. Pouco depois, em uma cerimônia de traslado de corpos de militares mortos no conflito, Trump indicou novos ataques, dizendo que o Irã “vai pagar um preço muito alto” e que está “sendo devastado”.
Fonte: O GLOBO


























