MESADA FORTEAgente aposentado da PF recebia R$ 400 mil mensais para vazar informações sobre investigações

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A Polícia Federal concluiu que o ex-agente Marilson Roseno da Silva recebia uma mesada de R$ 400 mil de Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, em troca de informações sigilosas da corporação. O esquema, detalhado em relatório da PF, revela uma rede de vazamentos internos que beneficiou a família Vorcaro.

Roseno, que já estava aposentado, teria criado um mecanismo para obter dados de investigações confidenciais. Para isso, ele oferecia pagamentos via Pix, presentes e uma gratificação de fim de ano, chamada de “oferenda” por Vorcaro, com o objetivo de recrutar policiais federais ainda na ativa.

As investigações apontam que ele conseguiu cooptar o agente Anderson Wander da Silva e a delegada Valéria Vieira. Além deles, também participavam do esquema os policiais aposentados Sebastião Monteiro Júnior e Francisco Pereira da Silva, conhecido como Chicão, e um terceiro agente da ativa que não foi identificado.

O acesso aos sistemas internos da PF, como o e-Pol, onde são registrados os inquéritos em andamento, permitiu que Henrique e Daniel Vorcaro obtivessem informações privilegiadas. Em um episódio, Daniel conseguiu antecipar um mandado de prisão contra si mesmo e o repassou a um site jornalístico para usá-lo em sua defesa.

Por ordem do Supremo Tribunal Federal, foram expedidos mandados de prisão preventiva contra Sebastião Monteiro Júnior, Francisco Pereira da Silva e Anderson Wander da Silva. A delegada Valéria Vieira Pereira da Silva foi afastada de suas funções públicas na mesma operação.

A PF descobriu que os pagamentos a Roseno eram disfarçados como prestação de serviços pela empresa dele, a Roseno & Ribeiro Gestão Empresarial Ltda. Parte do dinheiro passava pela King Participações, de Luiz Phillipi Mourão, funcionário de Daniel Vorcaro mencionado como “sicário” no relatório. Os repasses a Mourão eram feitos pelo cunhado de Daniel, Fabiano Zettel.

Mensagens obtidas pela PF mostram que Roseno cobrou Henrique Vorcaro em 6 de janeiro, após atrasos nos repasses. “Estou segurando uma manda de búfalo [sic]. Não me deixe a deriva, por favor”, escreveu. Vorcaro respondeu que enviaria “imediatamente 400” a Roseno. O policial aposentado replicou que o ideal seria R$ 800 mil, pois Mourão estaria repassando apenas metade do valor.

Em 9 de janeiro, Vorcaro disse a Roseno: “No momento que estou é que preciso de vocês”. Roseno respondeu: “Nos ajude para podermos lhe ajudar, mestre”. E completou: “Recurso já chegou aí, tá faltando boa vontade”.

A PF também identificou que o contador de Roseno orientava como ocultar a origem dos depósitos da família Vorcaro. Havia sugestões para usar CPFs de terceiros e fracionar os valores para evitar alertas das autoridades. A investigação cita Erlene Nonato Lacerda como suposta laranja de Roseno, com notas fiscais de dois pagamentos de R$ 50 mil da empresa de Vorcaro para ela.

Erlene também pagava despesas pessoais do policial aposentado, que mantinha um padrão elevado em Belo Horizonte, com apartamento em bairro nobre e uma caminhonete Hilux.

A PF afirma que as ações de Roseno nos sistemas corporativos dependiam do agente da ativa Anderson Wander da Silva, descrito como “longa manus” — executor de ordens. Wander acessou no e-Pol, ao menos em 2023, dados de investigações contra Vorcaro, e também recorreu a um colega para consultar informações de um passaporte a pedido de Roseno.

Além dos repasses mensais, Roseno acertou pagamentos adicionais com Wander. Em uma mensagem, disse: “Mandar um presente pra filhota que passou no vestibular. Qual o Pix?”. O relatório não especifica o valor, mas identificou um Pix enviado a Wander em 31 de dezembro de 2025. Em áudio, o agente agradeceu. O documento da PF aponta que o pagamento era compatível com o bônus de fim de ano pago por Daniel Vorcaro ao núcleo chamado “a Turma”.

A delegada Valéria Vieira Pereira da Silva também fez consultas de interesse da família Vorcaro. Em fevereiro de 2024, acessou um inquérito contra Henrique Vorcaro do ano anterior. Os documentos foram repassados a Roseno pelo marido dela, o agente aposentado Francisco José Pereira da Silva.

Mensagens indicam que, após não conseguir documentos sigilosos com Wander, Roseno avisou que procuraria “um colega”. Menos de uma hora depois, Valéria acessou as peças do inquérito. No mesmo dia, 23 de fevereiro de 2024, as informações foram encaminhadas a Daniel Vorcaro. O relatório, porém, não identificou pagamentos a Valéria e Francisco, e muitas mensagens enviadas ao casal foram apagadas.

Fonte: O Sul

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