A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira a Operação Miragem, que investiga suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo o Banco Digimais, instituição controlada pelo líder religioso Edir Macedo. A ação resultou no bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores dos investigados.
Segundo a PF, a investigação teve origem em relatórios do Banco Central que apontaram indícios de irregularidades na administração do banco. As suspeitas incluem manipulação de balanços, ocultação da real situação financeira e operações ilegais.
Entre os alvos de mandados de busca e apreensão e quebra de sigilo estão executivos que ocupam cargos estratégicos no banco, além de empresas e fundos ligados ao grupo. Quatro nomes se destacam: João Luiz Urbaneja, presidente do conselho de administração; Thiago Rodrigues Urbaneja, seu filho e diretor-presidente; João Alves de Campos e Marcelo de Lima Brasil, ambos diretores.
João Luiz Urbaneja comandava o conselho responsável pela supervisão estratégica do banco. Thiago ocupava a presidência executiva e também era vice-presidente do conselho. A PF solicitou busca e apreensão e quebra de sigilos bancário e fiscal para ambos.
João Alves de Campos aparece na estrutura organizacional como diretor, enquanto Marcelo de Lima Brasil também integrava a diretoria, conforme apresentação corporativa aos investidores. Ambos foram alvo das mesmas medidas cautelares.
Rodrigo Ruggero é outro executivo investigado, embora não conste na diretoria divulgada no fim de 2024. Rodrigo Balassiano e José Roberto Giancoli Filho também figuram entre os alvos, mas seus papéis específicos ainda não foram detalhados publicamente.
Além das pessoas físicas, a PF direcionou medidas contra o próprio Banco Digimais e a ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários. Também tiveram sigilos quebrados a B.A. Empreendimentos e Participações, a Bless Capital Gestora de Recursos, a Digimais Securitizadora de Créditos Financeiros, diversos fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) e empresas de consultoria relacionadas.
Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e controlador do banco, também foi alvo de quebra de sigilo, mas não de mandado de busca e apreensão nesta fase.
A Operação Miragem apura manipulação sistemática de balanços e resultados contábeis para ocultar a real situação econômico-financeira e aparentar solvência. A prática teria permitido supervalorização de ativos e geração artificial de receitas na casa das centenas de milhões de reais.
A PF também investiga operações financeiras supostamente ilegais em benefício da controladora do banco e possível falsificação de informações em sistemas oficiais do órgão regulador.
Mais de 50 policiais federais cumprem nove mandados de busca e apreensão em São Paulo. A Justiça autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e o sequestro e bloqueio de bens e valores de até R$ 670.348.945,70.
Os investigados poderão responder por gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas, previstos na Lei nº 7.492/1986.
O Banco Digimais foi fundado em 1981, em Porto Alegre, como Banco Renner. Em 2020, Edir Macedo assumiu o controle integral e rebatizou a instituição como banco digital. Ele já era acionista minoritário desde 2009, com 40% de participação.
Em 2022, o banco registrou prejuízo de R$ 740 milhões. Desde novembro do ano passado, a gestora Yards abriu uma disputa judicial, alegando falhas na carteira de créditos oferecida. Ao menos 22 mil CCBs, de um total de 54 mil, teriam problemas de lastro.
Em março, a revista Piauí revelou um modus operandi fraudulento semelhante ao do Banco Master. O fundo EXP1 acusa o banco de vender R$ 650 milhões em carteiras de crédito falsas. O jornal Estado de S. Paulo mostrou que há repasses de carteiras com cerca de 60% de inadimplência.
Fonte: O GLOBO























