HISTÓRIAComo os açorianos moldaram a identidade de Santa Catarina

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Durante quase três séculos, o litoral de Santa Catarina foi o principal meio de acesso ao território. O mar era a via por onde chegavam suprimentos, correspondências, militares, imigrantes e produtos. Foi a partir da costa que surgiram as primeiras paróquias, fortalezas e engenhos, elementos que definiram a cultura local.

Os primeiros colonizadores que se estabeleceram em definitivo foram os originários do arquipélago dos Açores. Eles trouxeram consigo uma herança que se mantém presente nas construções religiosas coloniais, nas celebrações religiosas, nas manifestações do Divino Espírito Santo e na minuciosa renda de bilro.

O quinto episódio da série 500 de SC, do grupo ND, detalha essa trajetória, que se inicia no litoral norte, em São Francisco do Sul, a cidade mais antiga do estado. A Baía da Babitonga, por sua localização estratégica, tornou-se parada obrigatória para navegadores europeus já no início do século XVI.

Entre esses navegadores estava o francês Binot de Gonneville, cuja passagem pela costa catarinense é considerada por alguns historiadores um dos primeiros contatos europeus registrados na região. Aldair dos Santos Carvalho, pedagogo e mestre em Patrimônio Cultural, explica que Gonneville era um navegador francês interessado em explorar o Atlântico Sul, e há indícios de que ele tenha chegado a São Francisco do Sul.

Apesar dessas primeiras visitas, a colonização portuguesa demorou a se firmar. Nos séculos XVII e XVIII, a rivalidade entre Portugal e Espanha pelo domínio do sul da América levou a Coroa lusa a intensificar sua presença na costa catarinense. A construção de fortalezas, como as de Anhatomirim, Ratones e Araçatuba, integrava essa estratégia de proteção territorial. No entanto, apenas erguer fortificações não era suficiente: era necessário povoar a região.

No reinado de D. João V, Portugal iniciou um amplo plano de colonização do litoral catarinense. O objetivo era ocupar as terras, produzir alimentos para abastecer outras áreas da colônia e assegurar a soberania portuguesa em meio a constantes disputas territoriais. Do outro lado do oceano, as condições favoreciam esse projeto.

Os Açores passavam por um período de excesso populacional, dificuldades econômicas e repetidas crises na agricultura. Em 1746, a Coroa portuguesa divulgou um edital convocando famílias interessadas em emigrar para o sul do Brasil.

O historiador Francisco do Vale Pereira, pesquisador do Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), informa que havia requisitos rigorosos para a seleção. O edital exigia famílias já formadas, com homens de até 35 anos, mulheres em idade fértil e, de preferência, com filhos pequenos.

A primeira expedição oficial partiu em 1747 e chegou a Santa Catarina em 6 de janeiro de 1748, Dia de Reis. Até 1756, aproximadamente seis mil açorianos e madeirenses atravessaram o Atlântico e ocuparam diversos pontos do litoral catarinense.

No entorno das igrejas, surgiram as primeiras freguesias, que estruturavam não apenas a vida religiosa, mas também a administração, a convivência social e o desenvolvimento econômico das novas comunidades. O padre Kelvin Borges, da Arquidiocese da Capital, destaca que as comunidades se organizavam ao redor das freguesias, originando localidades como Santo Antônio de Lisboa, Lagoa da Conceição, Ribeirão da Ilha, São Miguel e São José da Terra Firme.

Junto com as freguesias, chegaram costumes que perduram por gerações. A Festa do Divino Espírito Santo, o Terno de Reis e a Procissão do Senhor dos Passos continuam a reunir comunidades e a manter vivas as práticas religiosas herdadas dos colonizadores portugueses.

Ao chegar, os colonizadores encontraram um território já habitado por povos indígenas, que conheciam profundamente o ambiente local. Entre seus saberes estava o cultivo de diversas variedades de mandioca, alimento que logo substituiu o trigo, escasso na nova terra.

Da fusão entre o conhecimento indígena e as técnicas europeias surgiu um dos maiores símbolos da economia catarinense nos séculos XVIII e XIX: o engenho de farinha. Adaptando a tecnologia dos moinhos movidos por tração animal para moer a mandioca, os colonizadores criaram uma atividade que fez da Ilha de Santa Catarina um importante polo produtor. No auge, o litoral chegou a ter mais de 300 engenhos, impulsionando a economia regional por quase duzentos anos.

Hoje, a farinhada é muito mais que um processo produtivo: é um ritual comunitário. Cláudio Agenor de Andrade, proprietário do Engenho Andrade, afirma que promover essas farinhadas atualmente é um ato de resistência, uma forma de afirmar que essa cultura ainda existe.

Outra tradição preservada é a renda de bilro, técnica artesanal transmitida de geração em geração, principalmente por mulheres das comunidades pesqueiras. Na Casa dos Açores, em Biguaçu, a rendeira Fernanda Gonçalves Martins mantém viva essa herança, aprendida na infância com a avó e a mãe. Para ela, fazer renda evoca a memória de quem já partiu, carregando grande valor sentimental.

A nutricionista Sabrina Amaral dos Santos participa do grupo de rendeiras pensando na continuidade entre gerações. Ela tem duas filhas e deseja ensinar a técnica a elas, como forma de garantir que essa cultura não se perca.

A enfermeira Dionice Furlani vê cada ponto da renda como uma homenagem às mulheres que vieram antes. Ela acredita que, quando essa tradição desaparece, perde-se também uma parte da identidade.

A Casa dos Açores, transformada em Museu Etnográfico, preserva elementos do cotidiano colonial, como o antigo aqueduto que abastecia de água e a cacimba usada pelos moradores. O local também guarda a memória da população escravizada, que realizava atividades domésticas e de manutenção, lembrando que a sociedade colonial foi construída sobre relações profundamente desiguais.

A escritora e socióloga Lélia Pereira da Silva Nunes define a Casa dos Açores como um marco da história cultural açoriana em Santa Catarina, um verdadeiro portal para compreender essa trajetória.

Ao longo de quase três séculos, as tradições trazidas pelos colonizadores portugueses foram transformadas pelo contato com indígenas, africanos e outros grupos de imigrantes que chegaram ao estado. Desse encontro nasce e se molda a identidade do litoral catarinense.

O próximo episódio da série “SC 500 Anos” abordará as disputas de território envolvendo Santa Catarina e o momento em que a região deixou de ser província para se tornar um estado.

Sobre o Projeto “SC 500 Anos”: é um movimento multiplataforma do Grupo ND, com curadoria de Lelia Pereira Nunes, Sueli Petry, Claudio Silveira e Moacir Pereira, patrocinado por Aegea SC, Fiat, Martinelli, Blumenau Iluminação, Fiedler Automação Industrial, Alínea Urbanismo, UNC – Universidade do Contestado, Koerich e Trimania Norte, Trimania Sul, Trivale e Diamante.

Fonte: ND+

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